Os maiores maratonistas

Paulo Vieira

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CORRER UMA MARATONA É MUITO SIMPLES para eles. Não se pensa em estratégia, split, treinos de intensidade, coisas do tipo. Quando muito, fiam-se num certo pace, num certo ritmo de corrida, e estamos conversados.

Ontem, passadas quase seis horas do início da nova Mara de São Paulo, fui conversar com alguns corredores, a maioria com mais de 55 anos, que concluíam naquele momento a prova, perto do meio-dia.

É PRECISO DESRESPEITAR A MARATONA

MARATONA, A CRETINICE FISIOLÓGICA

MARATONA, O FETICHE

MINHA PRIMEIRA MARATONA, VIVACE

OS QUENIANOS DA PIZZA

O ETERNO ÚLTIMO COLOCADO

MEU PRIMEIRO NIKE

Mesmo depois desse tempo todo correndo, não estavam esbaforidos – alguns ainda precisavam tomar o trem para voltar para casa. Havia gente que já estava na sua nona maratona, como a Laura Berbel, e havia quem debutasse, como a Alessandra Cristina, que usou um aplicativo da Nike para treinar.

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LAURA BERBEL
Nona maratona. Começou a correr em 2007. Teve câncer de mama e passou por tratamento radioterápico há dois anos. É sua terceira maratona desde então.
TEMPO: 5:58:38/3304ª colocação entre todos os 3362 finalistas /68ª colocação entre as 73 mulheres de sua faixa etária (50 a 59 anos)

“Tou muito feliz, pois venho de tratamento radioterápico, que normalmente compromete a condição pulmonar. Procurei respeitar aqui uma frequência cardíaca máxima de 70%. Corri abaixo do meu limite, mas foi muito importante e simbólico terminar esta maratona. Comecei a correr pois meu marido (também maratonista)  e meu filho (pratica Ironman e correu a prova com ela ontem) voltavam para casa de seus treinos sempre felizes, achei que havia algo de bom ali. Não sei qual minha próxima maratona, agora só estou correndo uma por ano, a próxima vai ser em 2017.”

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JOSÉ CARLOS ESBRISSA
Terceira maratona. Contador, corre há 14 anos. Já havia terminado os 42K em 4:50, mas ontem se contundiu e precisou andar para concluir a prova. É ultramaratonista e diz que ainda este ano faz trecho de 32K no revezamento Bertioga-Maresias
TEMPO: 5:46:12/3264ª colocação entre todos os 3362 finalistas /337ª colocação entre os 350 homens de sua faixa etária (50 a 59 anos)

“Percebi no treino que seria prudente não participar desta maratona, mas vim assim mesmo. Senti a contusão, daí que precisei andar para completá-la. Mas estou muito feliz, a gente pensa em momentos bonitos da nossa vida, começa a se conhecer melhor. A corrida de hoje foi muito especial, pois foi a primeira maratona da minha esposa, e ela (Roseane Melo, que completou a prova em 5:39:19) conseguiu chegar. Ela não sabia como seu corpo iria reagir. Meu melhor presente na chegada foi vê-la ali, me esperando. A partir de agora vamos sempre correr juntos.”

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ALESSANDRA CRISTINA DA SILVA
PRIMEIRA maratona. Dona de casa, 38 anos, corre e treina sozinha com ajuda de um aplicativo de corridas da Nike. Depois da prova, precisava caminhar até a estação Cidade Jardim para pegar o trem para o Grajaú
TEMPO: 5:33:11/3179ª colocação entre todos os 3362 finalistas /189ª colocação entre as 211 mulheres de sua faixa etária (30 a 59 anos)

“Estava com um pouco de medo, só tinha feito meia (em 2:20). Terminei chorando, foi emocionante, lembrei dos dias de chuva e frio lá no Cocaia (bairro do extremo sul de São Paulo à beira da represa Billings). Corro nas avenidas, ou passando a primeira balsa. Meu longão maior foi de 30K, sempre seguindo o aplicativo da Nike. Fazia muay thai, mas não tinha condicionamento, não conseguia correr nem um minuto. Agora que sei que posso terminar a prova, meu objetivo na próxima maratona, que vai ser a de São Paulo, ano que vem, é baixar o tempo.”

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OSMAR VITOR DA SILVA
55 anos, 10 anos correndo. Corre com a assessoria Meditação. Segunda maratona de sua vida
TEMPO: 5:25:58 /2629ª colocação entre os 2801 homens

“Para fazer maratona é preciso trabalhar muito a cabeça. Aqui cuidei de manter meu pace e a respiração e torci para que as pernas me deixassem ir. Tive muita dificuldade no começo, com o frio. Na maratona anterior andei quase metade da prova, aqui só corri. Mas hoje vou para casa sossegado. Esta aqui nem se compara à minha primeira prova, de  5K, ali foi difícil, passei o domingo quebrado. Vou fazer uma ultramaratona de 70K já no ano que vem, mas para isso preciso perder ainda uns 7 ou 8 quilos, fortalecer as pernas. Não parece, mas tenho 95kg.”

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RICARDO AZEVEDO
Quarta maratona. Treina nas ruas do Alto de Pinheiros, mas, como é pequeno empresário, não tem tempo para seguir a planilha “como se deve”. Começou a correr depois dos 55 anos. Antes, praticava esgrima.
TEMPO: 5:39:51/3219ª colocação entre todos os 3362 finalistas /88ª colocação entre os 99 homens de sua faixa etária (60 a 69 anos)

“Normalmente corro sem parar até os 34K, depois alterno 300 metros de caminhada e completo o quilômetro correndo. Este foi o meu melhor tempo de maratona. Quando comecei a correr distâncias mais longas, mais de 16K, sentia sempre aparecer lesãozinhas, mas eu nunca as deixava crescer. Hoje só senti uma dorzinha no joelho direito, mas foi tranquilo. Agora vou correr a meia da Athenas e no primeiro semestre do ano que vem a Maratona de São Paulo. Não me importo que em São Paulo não tenha ninguém nas ruas torcendo, se eu fosse sentimental talvez eu me importasse.”

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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