Histórias de um corredor no Rio de Janeiro

Paulo Vieira

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O LINDO PARQUE OLÍMPICO A POUCOS K DE SUA GOMA não teve o condão de alterar a rotina estoica de Ricardo Henrique, o maratonista desencanado.

Ele continuou acordando naqueles horários em que só nadadores americanos estão despertos (y borrachos). Tudo para dar sua corridinha matinal pela Barra e adjacências.

Aqui ele conta quem costuma encontrar em horário tão heterodoxo. Guardadas as proporções, o cascalho da Barra está para nosso Brocador como o quintal aéreo de Ipanema para aquele contista famoso.

O MARATONISTA DESENCANADO

DA BARRA AO CRISTO COM O MARATONISTA DESENCANADO

O CONTADOR DE PASSADAS

O CANDOMBLÉ, A DOIDEIRA DO JORNALISTA DO LE MONDE E O ERRO DA IMPRENSA BRASILEIRA

BLAME IT ON RIO

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SÃO 5 DA MANHÃ, OS CACHORROS me olham preguiçosos e nem saem do lugar, abro o portão, aceno para o guarda e aciono o relógio que, sincronizado com o iPhone, o sensor cardíaco e o contador de passadas, emite um sinal sonoro dando inicio à corrida.

Ela começa nas ruas de paralelepípedo do condomínio por onde passam caseiros obstinados e funcionários que começam a chegar. Entre bons dias e olás cruzo o portão. Mais um “oi”, dessa vez para o porteiro, antes de ganhar a rua.

Atravesso uma avenida das Américas ainda deserta, e ao chegar ao outro lado me encontro com um senhor que inicia sua venda de café. “Bom dia, patrão”, ele diz, e respondo fazendo a curva pela calçada pavimentada com pedras portuguesas.

Vou com cuidado: mais de uma vez, pedras soltas já tentaram me derrubar. Pedras soltas sob os pés, frutos de árvores sobre a cabeça – eis alguns obstáculos a contornar.

Tenho na cabeça uma bombeta com faixas reflexivas, aquelas que brilham no escuro. Também as tenho no tênis, no calção e na camisa – um homem prevenido, já diziam nossas mães e avós, vale por dois.

Nessa hora, um corredor não é a presença mais admirada na rua, pois ele é confundido com punguistas e outros camaradas que, como diz o editor deste site, vivem de expediente.

Com efeito, voltando pra casa já com a luz do dia, uma mulher um dia tomou um susto tão grande com minha aproximação que tive de parar para acalmá-la.

Esse foi só um caso, mas há muitos outros, como aquele protagonizado por dois armários que fechavam inteiramente a passarela sobre o canal de Marapendi. Decidi pisar mais forte procurando fazer barulho para que eles me vissem e, misericórdia, me dessem passagem.

Aproximei-me, e quando estava bem perto, acabei por pisar numa placa do piso que estava solta.

O barulho foi forte, de pancada, e isso assustou os gorilas, que pularam para os lados. Por pouco um deles não vence a proteção da passarela e faz um duplo carpado direto no canal.

Se os sujeitos estivessem armados talvez eu não pudesse contar esta história.

Nessa ponte, aliás, fica uma guarita da PM. Certa vez, havia dois guardas do lado de fora, e, ao passar por eles, ouvi um estrondo, quase uma explosão. Era um carro que, sem freiar, havia batido na ponte.

Uma mulher cambaleante e já com o celular na mão saiu do carro, acudida pelos gambés.

O maratonista desencanado
O maratonista desencanado

Acidentes são comuns ali ao nascer do sol, na pista em direção a São Conrado, pois o sol ofusca completamente a visão dos motoristas.  Volta e meia isso acontece com os pequenos caminhões de entrega.

Fica a dica para quem estiver com o orçamento apertado e se dispuser a apanhar frutas e legumes pela pista.

Já chegando à praia, atravesso a Lúcio Costa e costumo virar à esquerda em direção ao quebra-mar. Quase sempre encontro um senhor que ali finaliza seus 5K diários: reconheço-o de longe pelo tipo de passada, acelerada e curta, e pela silhueta pequena. Sempre nos saudamos.

🙂 🙂 🙂

Mais adiante, encontro outro senhor magro, biótipo nórdico, alto, calção, camisa e tênis brancos, andando bem depressa. Muito simpático, jamais deixa de me cumprimentar.

Muitas pessoas se saúdam nessa hora, às vezes apenas com esgares, abanos, adeusinhos, sorrisos. Uma senhora pequenina, possivelmente septuagenária, que sempre encontro ali e percebo que vem melhorando sua performance, é muito entusiasmada quando me dá bom dia.

Finalmente, mais próximo da praça do Ó estão as “meninas”, e é incrível constatar que, mesmo naquele horário, ainda recebam visitas. Cheguei a ganhar elogios ao passar por um grupo que atravessava a rua em minha direção. Agradeci e prossegui, sem alterar o passo.

Nem todos são assim tão simpáticos. Há aqueles que, embora passem por mim todos os dias, não são capazes de uma saudação; e há os que passam correndo e deixam como “legado” seu tom de superioridade.

Um desses, careca, certa vez passou por mim. Eu o cumprimentei, ele me ignorou.

Comprei a provocação: resolvi acelerar.

Depois de ultrapassá-lo, fiquei dosando a distância pelo som das passadas: toda vez que se aproximava, eu acelerava e não o permitia me alcançar. Fomos assim por uns 4 K, aumentando a velocidade até que comecei a ouvi-lo cada vez mais esbaforido.

E foi assim, com a pisada irregular e reduzindo o ímpeto, que terminou o treino, totalmente ofegante. Sou obrigado a dizer que fiquei feliz com isso, pois eu já estava também na iminência de abrir o bico, mas mantive o ritmo até ter certeza de que estava fora do alcance visual do coleguinha.

Depois disso nos encontramos outras vezes. Passamos a nos cumprimentar civilizadamente.

(continua)

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com as quatro nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé

Um Comentários

  1. Lucia

    Gosto muito de histórias verídicas.
    Este Maratonista Desencanado sabe contá-las muito bem.

    Responder

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