Do Peru

Paulo Vieira

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NA PRIMEIRA E ÚNICA VEZ que fui a Machu Picchu, no Peru, eu ainda não havia me tornado um adicto da corrida. O mês era junho, o ano, 2002, e Felipão ainda estava por se cobrir de glória. Entre seus comandados, nomes que hoje soam constrangedoramente datados: Rivaldo, Marcos, Edmílson. Kleberson, Gilberto Silva.

Não estava no melhor do meu condicionamento físico, tampouco no pior. Encarar a trilha inca, o caminho que, do ponto que desembarquei do trem até a visão impactante da cidade sagrada dos incas, significava percorrer cerca de 15K por escadas de pedra em dois dias, não foi nada difícil.

Eu sou o sol/ Sou eu que brilho
Eu sou o sol/ Sou eu que brilho

Meu parceiro na fita, o fotógrafo Eduardo Albarello, codinome Velho, não pensa do mesmo jeito.

Naquele tempo, era possível pernoitar no albergue Wiñay Wayna (“eternamente jovem”, em quéchua), o que fazia toda a diferença. Lembro de italianos falastrões que chegaram tarde da noite vindo da caminhada mais longa, de quatro dias, mas nem eles foram páreo para o ronco do Velho.

Na matina seguinte, acordamos com as vicunhas e fomos ver o sol nascer em Machu Picchu. Ter um guia que sabia traduzir o que foram um dia aquelas ruínas foi, como se diz, top. Por maior que seja sua capacidade de abstração, dificilmente você vai conseguir identificar, no meio das pedras, o local exato onde os incas contemplavam solstícios e equinócios, se banhavam ou sacrificavam crianças.

Quando muito, vai apenas ficar de cara com a coleção interminável de pedras lisas, perfeitas, quadradas, grandes, justapostas umas às outras sem cimento ou ranhuras.

Sem o guia você também desperdiça a oportunidade de celebrar o gênio de uma civilização ciceroneado por sua própria gente, já que boa parte dos peruanos andinos descende dos incas.

Havia um único hotel nas proximidades de Machu Picchu, que a internet hoje me diz ser o Belmond Sanctuary Lodge. Em 2002, tentei, debalde, encontrar nele uma TV para ver ali, naquele local maravilhoso, a semifinal contra a Turquia, o 1 a 0 com gol de bico.

Como não consegui, inventei de ligar a cobrar para o Brasil, e, enquanto a telefonista da Embratel tentava contato com um número que eu sabia de antemão que não atenderia, ela me descreveu a finta do Denilson em cinco turcos, talvez a única coisa útil que o ponta-esquerda fez em sua carreira.

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MEU AMIGO, O TARAHUMARA

APRENDENDO A FOTOGRAFAR COM P.H. PAMPOLIN

Em retrospecto, parece que sou um completo fanático por futebol, o que não é inteiramente falso. Mas essas memórias do Peru ficaram realmente mais vívidas com a Copa de 2002. Só de começar a escrevê-las aqui já lembro de outra mão, o jogo contra a Inglaterra, quando eu e Velho ainda estávamos em Lima.

Eram umas 3 da manhã, e a cada gol eu fazia saber ao Velho, que dormia:

– Gol da Inglaterra, Velho.

– Puta que o pariu, vai se foder.

– Velho, gol do Brasil. 1 a 1.

– Puta que o pariu, vai se foder.

– Brasil virou, Velho.

– Puta que o pariu, vai se foder.

Uma viagem ao Peru prescinde completamente de artifícios como o futebol para ser prazerosa, e ele entra aqui por razões anedóticas. Poderia ter escolhido outra clave cômica para introduzir o assunto. Ter deixado todos os meus dólares no Brasil, por exemplo, e só ter descoberto isso ao aterrisar em Callao. Se bem me lembro, na época não possuía cartão de crédito, o que complicava um pouco a situação.

Foi preciso esperar uma equipe do programa do Gugu que chegava a Cusco por aqueles dias para cobrir o Inti Raymi, a Festa do Sol, evento que celebra o solstício de inverno, quando o deus Sol finalmente deixa de se afastar do Hemisfério Sul, para eu conseguir reaver meu pixo e sobreviver na Terra Estrangeira.

Eu não conhecia ninguém da equipe que me trouxe o dinheiro, mas tempos depois ficaria próximo do Arthur Veríssimo, o líder da trupe, hoje Meu Amigo, o Tarahumara.

(CONTINUA)

Telefonei para o Velho por amor de conseguir alguma foto da viagem para ilustrar este post, mas na época ele ainda usava “cromo”. Eles não foram digitalizados. Talvez um dia. Quando fotografa, Velho segue preferindo cromo.

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

2 Comentários

  1. Rachel

    Gosto dos teus textos Paulo e esse, em especial, me relembrou a palavra debalde, tão esquecida! Rsrsr . Beijo

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    • Paulo Vieira
      Paulo Vieira

      Obrigado, Rachel. Se deres uma busca em “debalde” vai encontrar mais algumas pelo JQC. Beijos

      Responder

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