Pipoca: a voz do organizador

Paulo Vieira

Corri a meia maratona de São Paulo domingo retrasado na “pipoca” – sem pagar pela inscrição. E para irritação de alguns, desgosto de outros tantos e gáudio de pouquíssimos, transformei isso em matéria jornalística. Link abaixo.

PIPOCA NA MEIA

Transformar fatos da corrida em matéria jornalística é a razão de existência deste site, não custa lembrar.

DO QUE FALAMOS QUANDO FALAMOS DE CORRIDA

A pipoca pode não ser um case exclusivamente brasileiro, mas responde por cerca de 10% do volume dos participantes de provas, numa média aproximada, segundo os promotores.

O QUE MURAKAMI FALA QUANDO FALA DE CORRIDA

É, portanto, um fato deveras jornalístico. Mas dar voz ao “pipoca” era apenas parte do projeto. Esta semana damos voz, ou vozes, a outro ator desse processo, o organizador. Esperava começar a série com a Yescom, que organizou a Meia na qual pipoquei, mas as respostas às minhas perguntas, enviadas por e-mail, ainda não chegaram.

DA ARTE DE NÃO FALAR COM MURAKAMI

Comecemos então com o Carlos Galvão, da Latin Sports, que organiza o maior circuito de corridas de rua do Brasil, a Track&Field Run Series, além das provas do Ironman Brasil e de 70.3. Falei com ele por telefone. Eis os principais extratos da conversa.

A Track&Field Series/Foto: Latin Sports
A Track&Field Series/Foto: Latin Sports
O PIPOCA

“Acho abominável. É uma prática indecente e covarde.  Eu fico doente com isso. Se a pessoa não pode desfrutar de bem ou serviço, não pode e ponto final. Se eu não posso jantar em restaurante que cobra R$ 1000 pelo prato, não vou, simples. É tão abominável quanto os estudantes de direito comerem de graça no Dia do Pendura.”

O CUSTO DO PIPOCA

“Nossas provas são para apenas 2 000 pessoas, e a média de pipoca é de 10%. Mas já aconteceu de haver uns 500 pipocas numa prova. Quebra nosso planejamento. O vagabundo vai tomar a água de quem pagou inscrição, e mesmo que a água seja permutada, isso representa custo. Mas eu nem penso tanto em custo, penso em risco. Há corredores que fazem 10K em 1:10, 1:20, e esses podem não encontrar água nas últimas estações.”

NÃO VEM PRA RUA

“O pipoca diz que a rua é pública, mas neste caso não é. O organizador paga caro para fazer o bloqueio para a corrida. Para fazer a Track & Field do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, a CET [autoridade de trânsito da cidade] me cobra 30 mil reais – algo como 15% do custo total da corrida.”

A ESTRATÉGIA DE CONTENÇÃO

“Não tem muito o que fazer. Há um bloqueio antes do funil de chegada, mas na largada muita gente se mistura. Se formos muito truculentos ali podemos gerar um desconforto.”

A CRISE E O PIPOCA

“Hoje patrocínio paga 50% dos custos das minhas corridas. Vem caindo, por isso a inscrição torna-se cada vez mais importante. E eu venho observando a pipoca se replicar em muitas outras praças pelo Brasil com a crise econômica. Há pipoca em Teresina, Campo Grande, Manaus. Pode ser reflexo da crise, mas, repito, a pessoa não tem direito de fazer isso.”

(DES)UNIÃO DA CATEGORIA

“Já se tentou aqui em São Paulo uma conversa para uma associação dos dez maiores organizadores. Uma parte do grupo tinha uma certa identidade, mas outros não se entendiam. Hoje é cada um por si.” 

Tagged: , , , , ,

/ 712 Artigos

Paulo Vieira

Paulo Vieira corre pelas ruas de São Paulo desde os 15 anos e pelo mundo desde os 32, quando passou uma temporada em Londres. Adora correr em estradas rurais, descobrir novos caminhos e ir e voltar do Pico do Jaraguá. Mas agora anda frequentando também treinos no Parque Villa-Lobos às 7 da manhã com seu tênis minimalista - desde que a Lusa não jogue na véspera.

7 Comentários

  1. walter jose piloni

    Fiz a track field batel 2016 em Curitiba, com inscrição. E daqui praa frente, vou seguir o conselho do promotor da corrida, “Se a pessoa não pode desfrutar de bem ou serviço, não pode e ponto final. Acho que pagar R$ 90,00 por uma corrida de rua é algo inaceitável, num momento de crise em nosso pais. Receber uma camiseta para fazer propaganda de uma grife, um par de meias, duas frutas, um copo de água é uma troca desigual. Não, eu não vou mais correr, eu também não vou na pipoca, aceito as razões do promotor, mas o pipoca é um atleta, que não tem condições de pagar R$ 90,00 por uma corridinha, e não o chame de “vagabundo”.

    Reply

    • @JoseAdolfo

      Curti seu comentário! Completo dizendo que poucas cidades cobram pelo fechamento das vias públicas. Esse organizador deveria fazer a corrida dele dentro do shopping para respeitar quem corre e provavelmente já pagou por uma das edições do evento dele. No meu caso, acredito que o custo beneficio não vale a inscrição que vem aumentando, mesmo já tendo pago por 5 TFRS. Porém, não pego água pois sei que pode atrapalhar os que estão começando atrás e até 10km dá pra concluir sem água já que o pipoca não disputa pódio.

      Reply

  2. Wilson Ferreira

    Boa noite! Corro nas ruas a quase dois anos e sempre que posso participo de corridas inscrito, mas por algumas ocasiões tbm corro de pipoca por exemplo quando estou treinando para um outro evento, quando eu gostaria de correr aquela corrida mais não tinha o dinheiro para pagar, R $90, 00 em uma inscrição de corrida é fora da realidade do nosso país. Agora vem esse idiota aí e chama os pipocas de vagabundos, pra mim além de idiota ele é um burro, muitos pipocas que estão ali estão indo pela primeira vez em uma corrida e serão futuros clientes dele ou seria porque depois das idiotices que ele falou, vamos divulgar isso …voces acham que esse cara está mesmo preocupado com a prática de esporte?

    Reply

    • @JoseAdolfo

      Qdo ele xingou ex e futuros clientes já perdeu a razão. Ele deveria é parar de usar verbas de incentivo públicas ao cobrar o alto preço. Isso vale uma reportagem investigativa aqui do portal.

      Reply

  3. lidianne andrade

    Concordo com o ponto de vista: se nao pode pagar nao vai. E se o evento nao vale a pena ou a organizacao ousa chamar corredor de vagabundo melhor nao ir mesmo.

    ate porque em minha cidade a track foi em um shoppin center. esse organizador sabe seu publico: os que correm por uma medalha e nada ajudam a democratizar o esporte.

    ate na corrida ja se separa os ricos dos pobres? serio isso?

    Reply

  4. Gilson

    “Se não podes pagar, não corra”.
    “Se não podes pagar, não estude”.
    “Se não podes pagar, não coma”.
    O tempo passa e a filosofia do “ao rico tudo ao pobre nada” permanece incrustada nas pequenas e egoísta mentes.
    Ainda não fui de pipoca em nenhuma corrida, mas os preços que certos organizadores cobram chega a ser imoral. Parece ter o intuito maior de limitar aos mais afortunados uma atividade tão democrática. Não estranhem se começar a aparecer “corrida de rua gourmet”.
    Mas, continuando com os “Se não pode”…
    Se não pode organizar, não tente.
    Se não pode pensar, não fale!

    Reply

Trackbacks & Pingbacks

  1. Jornalistas Que Correm - PFC 199 - Podcast Por Falar em Corrida

Deixe seu comentário

* Campos obrigatórios. Seu e-mail não será publicado.