Um cachaceiro na São Silvestre

Paulo Vieira
É o da esquerda/Arquivo Pessoal
Tedinho e o designer Cacá, outro SSmaníaco/Arquivo Pessoal

Com quase três décadas de Folha de S.Paulo, Luiz Antonio del Tedesco, o Tedinho, é um danado de um cachaceiro. Não desses que tem tremeliques às 10 da manhã, quando aliás ainda dorme, mas um daqueles apreciadores natos e nada pedantes da marvada.

FERNANDO ALVES PINTO E A SUPERAÇÃO NA SÃO SILVESTRE

Sua paixão pelo mé fez com que constituísse uma coleção fantástica da água que passarinho não bebe, e o fez, coisa curiosa, à sua própria revelia. É que cada mísera viagem que seus camaradas faziam pelo Brasil era mais uma garrafa pro Tedinho na volta.

MAIS CORRIDA, MAIS BIRITA

Destarte, saber por meio de seu Facebook que ele havia completado a São Silvestre, ainda que num tempo digno do cágado de Aquiles, causou-me verdadeiro estupor.

Agitador avant la lettre, Tedinho fez a SS envergando a camiseta do clube de futebol Palestino, o que para bom entendedor é mais que suficiente. Uma provocação, claro, que suas muitas primaveras hão de escusar. Seu amor pelo futebol e pela geopolítica, diga-se, só vem abaixo da paixão pela nova literatura portuguesa (“João Pereira Coutinho é seu principal expoente”).

AQUILES E A TARTARUGA

Refeito do horror da notícia, pedi, célere, que ele contasse sua saga aos amáveis leitores do JQC, mas esse meu tão dileto amigo, alegando que as tensões no Oriente Médio e a posse dos novos congressistas na Venezuela o assoberbavam, deixou os dias correrem.

Mas ontem, não sem reprimendas e ameaças pouco civilizadas por parte deste editor, ele pariu o texto.

E que texto, senhores. Uma verdadeira Claudionor, digamos  assim.

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Quilômetro 12,9.

Eu olhava pra cambada ao meu lado e me perguntava: pra quê? Virava pro lado direito e via um bando de cabeções suados, sofrendo, agonia estampada nos rostos. À esquerda, outro magote de sem-noção se arrastando nos primeiros metros da subida da assassina avenida.

Sorriso? Nenhum à vista. Cadê os olhares esperançoso de há alguns metros? Parecia que todos caminhávamos rumo ao abatedouro.

Agora sim esse tal de papa Silvestre 1º ia apresentar suas armas. Mas se o todo-poderoso da Igreja entre 314 e 335 determinou o fim da perseguição aos cristãos, por que nos condenava a todos a perseguir etíopes, quenianos, tanzanianos e demais ciborgues numa busca de humilhação inevitável???

Pois é, agora o bicho pegava pra valer.

Alguns metros atrás era fácil unir-se ao cântico entoado em uníssono: Uh, brigadeiro!, uh, brigadeiro!

Claro, tinha aquela descidinha ainda antes do viaduto Dona Paulina. Coisa de animar ingênuos como eu para pegar um embalo. Que nada. Pernas não são rodas. A lei da inércia não se nos aplica.

Então o jeito é baixar a cabeça e seguir adiante. Foi essa a dica que meu tutor me deu: “Quando aparecer a Brigadeiro, não fica olhando pro final que desanima. Baixa a cabeça e pau, que logo logo você chega lá”.

Tem diferença de um rebanho se encaminhando ao abate? Tem. Aqui o povo marcado, povo feliz escolheu o seu destino.

Obedeci. As passadas, que desde o início não chegavam nem a um metro, agora eram de meros centímetros. Não ultrapassavam nem o tamanho 42 do tênis.

“Não vou andar, não vou andar, não vou andar”. O mantra me acompanhou o tempo todo nesse alpinismo urbano. Quando a sombra do viaduto da Treze de Maio se fez sobre minha cabeça fumegante, era como estar alcançando o pote de ouro no fim do arco-íris.

Todos me haviam dito: “O foda mesmo é chegar até a Treze de Maio”. Caraca! Eu conseguira. Quase caminhando. Mas em nenhum, nenhunzinho milésimo de segundo, com os dois pés no chão. 

Mesmo assim não tive coragem de levantar a cabeça. Sei lá. Vai que tenho uma crise de pânico, um choque de realidade. 

Pé esquerdo, pé direito, asfalto, pé esquerdo, pé direito, asfalto, pé asfalto, direito, pé, cadarço, esquerdo asfalto…. Endoidei… Caraca. Que p&%$ essas endorfinas do c%$#@.

As “pantubilhas”, como diz meu afilhado lá de Tapiratiba, estavam explodindo. 

Não vai dar, não vai dar, não vai…

De repente, ao contrário do urro do boi no alto da serra, para os horizontes cada vez mais limpos, que tem algo de sinistro, como as vozes dos profetas anunciadores de desgraças (*), o grito feminino que ecoou no horizonte nada sinistrou: “Acabou a subida!!”

O quê? Acabou? E ainda tenho pernas?? Meu tutor me preparara muito bem. Foram ao menos duas dicas desde o dia em que decidi correr a famigerada prova… em 29 de dezembro. “Poupe energia para a Brigadeiro. Mesmo que esteja se sentindo bem, corra abaixo do seu ritmo.”

Eu havia seguido fielmente a instrução, afinal, meu tutor (que fez o percurso em 1h22) corre até meia maratona, e eu, em toda a minha quinquagenária existência, nunca havia corrido mais de 8K de uma só vez. 

Com o pouco de energia que saía das coxas e conseguia chegar aos pés, passando pelas rebeldes “pantubilhas”, ainda pude passar um bando de penitentes que arrastavam suas cruzes imaginárias. 

Cheguei. Primeira São Silvestre. Primeiros 15K da minha vida. Tempo: 2h00’22”.

Contei entusiasmado o feito para o lépido editor deste pasquim.

“Tedinho, a meta para 2016 é eliminar esses 22 segundos”, foi a resposta.


(*) Ascenso Ferreira

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Paulo Vieira

Paulo Vieira corre pelas ruas de São Paulo desde os 15 anos e pelo mundo desde os 32, quando passou uma temporada em Londres. Adora correr em estradas rurais, descobrir novos caminhos e ir e voltar do Pico do Jaraguá. Mas agora anda frequentando também treinos no Parque Villa-Lobos às 7 da manhã com seu tênis minimalista - desde que a Lusa não jogue na véspera.

2 Comentários

  1. Marcello D'Angelo

    Sensacional Tedinho!! Também no estertor do ano que só vai acabar em 2017 completei a minha primeira São Silvestre. Com um tempo poucos minutos maior (a cronometragem oficial não registro meu chip, então fico com a informação do meu Garmin) conquistei o primeiro lugar na categoria dos quenianos obesos!! Foi muito bom. Apesar do trafego de mamutes e perdidos em geral, pretendo voltar outras vezes. Parabéns ao JQC.

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    • Paulo Vieira

      Você é o próximo a contar sua história com o cascalho neste pasquim, Pizza. Diga quando que eu digo quanto. Abração!

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