Maratona, o fetiche

Paulo Vieira

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Realizar um fetiche. Eis o que significa, para mim, completar uma maratona. Nem mais nem menos. E é atrás desse fetiche travestido de superação atlética que seguem milhares de pessoas no Brasil, seguramente milhões no mundo. Eu agora me incluo entre elas. Como dito aqui, encaro a Mara de SP dia 17 próximo futuro.

Qual seria a diferença de vencer 42,2K algumas vezes na vida, e, digamos, correr diariamente 8 ou 10K? Algo precisa ser provado interiormente? Eclesiastes 1,2 sempre vai pairar acima de todas as questões, e assim não resolver direito nenhuma, mas se até na generosidade há vaidade, que mais dizer?

Desafios atléticos não têm parâmetros estanques. O que para muita gente pode ser uma meta intransponível, para outros não é grande coisa. Talvez haja mais glória numa caminhada de 3K de um obeso do que no triatlo do bem preparado septuagenário.

À maneira do grande Roberto Jefferson, mato no peito e trago a história para mim de novo: a julgar pela ausência de qualquer incômodo muscular 24 horas após meu longão de 32K do Dia do Trabalho, fazer um texto com tintas épicas no dia 18 tem tudo para colocar à prova minhas habilidades de ficcionista. Verdade que 32 ≠ 42, notadamente porque os 10K de diferença vêm justamente depois do 32.

E sim, é a cabeça, estúpido.

Com tudo isso, não vai ser um passeio. Sobretudo se não contiver meus arroubos e deixar o pace deslizar para a casa dos 5′, 5’10″/km. Coach Sergio Xavier, que me franqueou por quase duas horas seu querido e íntimo anel externo do Ibirapuera no treino do feriado, insistiu que eu fique nos 5’20”.

“O corpo agradece  quanto ele não é exigido ao máximo”, disse.

É cedo e pode parecer muito pretensioso dizer que a maratona de SP será um desafio atlético mediano para mim. Mas insisto que se trata de um fetiche.

Cuja realização, tem, claro, seu lado bom: mesmo com o sacrifício da atividade noturna e do mambo horizontal, tudo indica que vai deixar a vida menos baunilha. Pelo menos até a hora de inventar – e cumprir – o próximo fetiche.

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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