3:46:31

Paulo Vieira

Você prefere ler este relato da minha estreia na maratona, este fetiche tardio, fetiche de quarentão-alto, com emoção ou sem emoção? Tá bom, vou contar dos dois jeitos.

Paulo Vieira (o sujeito algo) nos intermináveis 195 metros finais/Fernanda Medeiros
Paulo Vieira (o sujeito alto) nos intermináveis 195 metros finais/Fernanda Medeiros

1. O chip de cronometragem não funcionou. A organização da Mara de SP é um lixo, como é consensual entre especialistas e maratonistas, que se espremem na largada com o povo da caminhada, do 8K e do 24K, provas concomitantes. Mas acho que a culpa nesse caso foi minha: não sei amarrar aquele troço direito. Hoje, ao procurar o meu resultado no site, percebo que não existo.

2. Mas não contavam com a minha astúcia! Fui à prova com meu Garmin. E depois que aprendi com Fessô SX a ficar parado, congelado, para o GPS pegar, o relógio não dá mais chabu. Eis os números:

Tempo: 3:46:31

Distância: 42,49K. Sim, 300 metros além do necessário segundo o bobo laranja do meu pulso esquerdo.

Pace geral: 5min20seg.

Calorias queimadas (não costumizado para meu peso, deve ter dado 10% a mais): 2961

Melhores giros: 2K, 3K e 27K – 5’03”

Piores giros: 40K – 6’49 e 38K – 6’24” (justamente os quilômetros dentro dos túneis, em que a medição fica afetada; certamente há uma grande distorção no tempo aí. Até porque o 41K registra um miraculoso 5’11)

3. Percurso monótono, metade dele na USP e no Alto de Pinheiros, quintal deste que vos escreve, mas com túneis infelizes e intermináveis depois dos 35K, justamente quando a porca torce o rabo. Bem que o Mario Sergio avisou.

4. Câimbra: não; músculos travados: nada consta; rezas, evocações divinatórias ou coisas do tipo: não, absolutamente; choro: cuma?; dificuldades para subir escadas hoje, o fatídico day after: realmente não.

5. Momentos complicados: USP, por volta do 33K, quando as pernas pareceram súbito pesar uma tonelada; avenida JK, 38-39K, já batendo a síndrome da linha de chegada; e os metros finais, que parecem sempre intermináveis.

6. Hidratação: sem reclamações (mas se estivessem os 30 graus da Mara de 2014, o gelo não daria conta nem para o primeiro K; mas se estivessem os 30 graus da Mara de 2014, eu nem me daria o trabalho de alinhar para a corrida. Não tenho vocação de suicida).

7. O saquinho com três batatas cozidas do 28K foi um upgrade, mas fazer os maratonistas subirem a ladeira do Bosque da USP para recebê-las é de uma vileza tal que desmonta a tese de Santo Agostinho. Não dá para justificar tamanha maldade apenas com o mau uso do livre arbítrio nos dado por Deus, como disse o filho de Santa Mônica.

8. Ter terminado a Mara sem parar  de correr uma vez sequer, nem mesmo baixar muito o ritmo, como lá atrás, na minha primeira meia do Rio,  é bacana, mas não exatamente motivo de orgulho. Terminar uma maratona não é construir uma casa, ajudar o próximo, comer as verduras colhidas na própria horta. É só um fetiche.

9. De qualquer forma, terminar sem quebrar mostra que planilha está bem longe de ser o único caminho possível. Minha receita envolve adicionar prazer à fervura.  Há meses que não dou um tirinho. Mas não faltaram subidas, um ou outro Pico do Jaraguá e até fevereiro fui um dedicado aluno de ginástica funcional do Compadre Wellington.

10. Não teve feijoada nem mé na véspera.

11. Em resposta aos gritos costumeiros de “Vai, Curintia” dentro do túnel da JK no começo da corrida ouviram-se uns “Dalle, Guaraní”; são-paulino estava novamente presente, novamente com seu estandarte, e o ultrapassei lá pelo 28K; aquela frase hedionda que diz que a “maratona separa os homens dos meninos” foi dita por um sujeito ao meu lado, quando do retorno, ainda na JK, do pessoal do 8K.

12. Gostei de ver uma corredora com uma camiseta onde se lia Equipe Força Vegana, ou coisa que o valha, mas se fosse apontar um grupo predominante entre os maratonistas, diria que, como no Congresso Nacional, ele é evangélico. Deus deve ter trabalhado bastante ontem.

13. Deu certo trabalho decidir, mas o Nike Free cumpriu perfeitamente a missão que lhe foi dada. Nada de bolhas, calos ou coisa do tipo após os 42,5K. É verdade que corri um bom quarto da corrida sobre a grama, pelo canteiro central das avenidas do Alto de Pinheiros.

14. Já no final, na JK, ultrapassei um corredor descalço.

(o com emoção está aqui)

O jornalista Paulo Vieira teve a inscrição na Mara de SP bancada pela Fila, uma das patrocinadoras do evento.

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Paulo Vieira

Paulo Vieira corre pelas ruas de São Paulo desde os 15 anos e pelo mundo desde os 32, quando passou uma temporada em Londres. Adora correr em estradas rurais, descobrir novos caminhos e ir e voltar do Pico do Jaraguá. Mas agora anda frequentando também treinos no Parque Villa-Lobos às 7 da manhã com seu tênis minimalista - desde que a Lusa não jogue na véspera.

1 Comentário

  1. David Sales

    Bacana seu relato. Sua prova foi muito parecida com a minha. A batata que poderia ter um pouco de sal né? ô gosto ruim aquele trem.

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