3:46:31 (vivace)

Paulo Vieira

(Versão com emoção da Mara de SP, já descrita em tempo andante moderato aqui).

Depois de ter corrido cerca de 32K no Primeiro de Maio, 21 deles na companhia luxuosa do Fessô SX, tendi a crer que fazer um texto épico sobre minha iminente estreia em maratona iria colocar à prova minhas habilidades de ficcionista.

Não me via correndo os 42,19K da Mara de SP com os quatro pés nas costas, mas também não me imaginava agonizando em praça pública qual um Judas na vigília pascal do Cambuci. Os relatos de maratonas publicados neste pasquim me pareciam – e parecem – já ter oferecido a cota de choro, câimbras e suor suficientes para o próximo decênio.

Só fatos muito momentosos no domingão iriam me dar munição para a epopeia que, de antemão, já me desculpava por descartar.

Alguns até houve, como a decisão algo estúpida de trocar o ônibus pelo metrô às 6h55 da manhã e este por um táxi na Paulista faltando minutos para a largada. No táxi, um carro na nossa frente subitamente perdeu a direção e chocou-se contra outro, estacionado, chispando ato contínuo da cena. Queria ter memorizado a placa para denunciá-lo.

Infelizmente para a minha epopeia não vi augúrio de coisa alguma na colisão.

Em jejum, na “concentração” procurei debalde pelo cream cracker amigo na tenda dos parças da assessoria esportiva Pacefit. Tive de filar uma banana de um desconhecido. Meu singelo café da manhã.

E não consigo me recordar de nada muito digno de nota durante a corrida até pelo menos os 24, 25K. Todo o trajeto me era conhecido, o que limitava a experiência “sensorial”. Uma fábrica fumacenta de cosméticos na avenida Escola Politécnica, logo após a chegada do povo do 24K (ou, na nova denominação entreguista da Globo/Yescom, “15 milhas”), me pareceu inapropriada para o cenário; uma jovem superproduzida e certamente tresnoitada perto do Portão 1 da USP lá pelo 33K me fez pensar em alguma cantada estúpida do tipo ‘É então nesse quilômetro que a prova fica boa?’.

Na frente do Jóquei, lá pelo 36K, dois amigos se despediram por conta da discrepância de ritmo, e o que foi na frente pediu em alto e bom som para que Deus os acompanhasse até a chegada. Eu devo ter sido abençoado por tabela.

Pai e filha num concerto dodecafônico/Fernanda Medeiros
Pai e filha num concerto dodecafônico/Fernanda Medeiros

No túnel Jânio Quadros, interminável, o superego coletivo claramente foi para o espaço. Um sujeito gritou: “Alguém aqui está cansado?”, e eu aproveitei para gravar uma tomada de vídeo com o celular. Improvisei com voz alta uma bobagem sobre a qualidade do ar que aquele lugar dos infernos nos proporcionava. “Estamos no Tibete”, tipo.

Para dizer que não senti nenhum incômodo corporal, houve um momento na USP em que as pernas me pareceram excessivamente pesadas. Mas elas não enviaram mensagens abortivas para a cuca, que seguiu altiva. Não precisei recorrer à tabelinha de estações da CPTM nem ao último Kurosawa.

Não faltou água; pedaços já cortados de laranja no Jóquei foram muito bem vindos; senti falta, contudo, de um gel de carboidrato durante a prova, pois os dois sachês que pretendia levar de casa sumiram como que por mágica. Mesmo que um dos patrocinadores da Mara fosse uma marca grande desse tipo de produto, só fui conseguir um depois de correr por cerca de 3 horas.

Bem feitas as contas, tudo isso não perfazia fração de interesse de outras corridas paulistanas que eu já descrevi aqui. Como esta, seguindo a linha do trem, ou esta, com Municipal e cracolândia de cenário.

Só que aí, na JK, começou a bater a síndrome da linha de chegada, doença que em sua manifestação mais aguda transforma ansiedade em medo pânico.

Mais eis que aos 47 do segundo tempo, ou aos 41,7K, para ser menos metafórico, quando a medalha já estava no peito, algo muito louco aconteceu.

Eu já estava chegando ao Obelisco e, qual um autômato, mal conseguia olhar para os lados a fim de contemplar o pequeno público que aguardava os competidores. Só tinha olhos para a frente, para o incrivelmente distante, assim me parecia, pórtico de chegada. Uma voz então se fez ouvir:

– Papai!

Olhei quase que por ato reflexo para a direita e uma menina loirinha de uns 10 anos colou em mim e se manteve o tempo todo a meu lado, no meu ritmo, até a chegada – realmente distante –, uns 500 metros dali.

Eu não aliviei, operava naquela hora por instrumentos, e Maria Vitória segurou o pace altíssimo para ela. Em dado momento, cones brancos se multiplicaram aos zilhões, como que a defender a meta inimiga –  a linha de chegada. Cheguei a pensar no paradoxo de Zenão, em que a tartaruga larga na frente de Aquiles e jamais pode ser alcançada: sempre vai haver metade, depois metade da metade, mais à frente metade da metade da metade, e assim sucessivamente, da distância a ser superada.

Pai e filhas na dispersão/Fernanda Medeiros
Pai e filhas na dispersão/Fernanda Medeiros

Não fosse a Vitória ali, aqueles segundos finais teriam sido uma bad trip de almanaque.

Pernas e “core”não davam sinais de esgotamento, bem longe disso, mas eu me sentia saindo de um concerto dodecafônico escrito para o Nine Inch Nails. A cabeça orbitava em algum sistema solar distante.

Na passagem pela tenda do saquinho de frutas e da medalha, perguntei por perguntar se Vitória poderia ganhar ela também uma medalha. A moça disse que não, e eu não insisti, mas ela não demorou 5 segundos para mudar de ideia e tascar uma no pescoço da minha filha.

“Não conta pra ninguém”, disse, com extrema simpatia.

Juro que se ela não fosse tão legal eu não contava.

O jornalista Paulo Vieira teve a inscrição à Mara de SP bancada pela Fila, uma das patrocinadoras do evento.

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Paulo Vieira

Paulo Vieira corre pelas ruas de São Paulo desde os 15 anos e pelo mundo desde os 32, quando passou uma temporada em Londres. Adora correr em estradas rurais, descobrir novos caminhos e ir e voltar do Pico do Jaraguá. Mas agora anda frequentando também treinos no Parque Villa-Lobos às 7 da manhã com seu tênis minimalista - desde que a Lusa não jogue na véspera.

2 Comentários

  1. Regina

    Parabéns aos dois Maria Vitoria e vc Paulinho!

    Não existe premio maior que a felicidade de ter uma Maria Vitoria e Maria Eduarda

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