O teste do teste da pisada

Paulo Vieira

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Sob todos os pontos de vista, aquele cicilista só queria ajudar. Ao me ver correndo sobre a ponte da USP num sábado desses, avisou: “Você corre muito pra dentro, precisa de um tênis pronado.”

Minha reação foi – o pleonasmo cabe – reacionária. Disse-lhe num tom que não sei se revelava contrariedade, enfado ou apenas soberba que meu tênis mínimo dava conta do recado; e que jamais havia me lesionado (deixemos de lado a fratura por derrapagem em Gonçalves). Quaisquer que fossem as palavras, a mensagem era: cuide de sua vida.

Num campeonato de empáfia, eu ganharia do jovem Agostinho, não o taxista, mas o santo, aquele que inutilizava as peras por onipotência, deixando-as cair, verdes, do pé. A passagem é famosa e está no começo de seu Confissões – ela irá embasar o discurso de que a maldade não é substancial, ao contrário do bem.

Mas Hipona acaba aqui.

O causo é que o ciclista me despertou para um tema interessante, e eu fui ver se os testes de pisada disponíveis em São Paulo me dariam uma resposta unívoca, endossando o alerta do bom homem das pedivelas.

Estive nas lojas da Nike e Asics, nos Jardins,  na multimarcas Velocità, onde atendentes simpaticíssimos levam a cabo um teste de pisada by Mizuno, e na RunBase da Adidas, que também provê um rápido exame.

Sim, o veredicto foi unívoco: leve pronação no pé esquerdo; pronação severa no pé direito.

Posto isto, vamos ao que interessa: o teste do teste de pisada. Seguem comentários sobre os métodos das marcas.

Pisando na Adidas
Pisando na Adidas

Nike. O mais básico deles. Um atendente fotografa com um tablet sua passada de trote na esteira. Depois analisa visualmente quão deslocado está o tornozelo de sua perna – sempre parece uma enormidade.

Mizuno (Velocità). Bacana. Depois que funcionários da Velocità colam adesivos em pontos de seus tornozelos e nas costas das suas pernas, hora de ir descalço para a esteira. Câmeras acopladas ao equipamento gravam imagens das passadas. O resultado vem num arquivo pdf, por e-mail, com a “impressão plantar”, uma imagem do seu pé destacando as áreas que mais tocam o solo;  o tipo de pisada é dado em graus em relação à pisada reta – no meu caso, a pronação varia de 16,46˚(pé esquerdo) para 19,37˚(direito).

Asics. Serious business. Aqui o teste é mais longo, requer dar respostas acuradas sobre seus hábitos de corrida e gera um relatório com diversas medidas do pé. Na primeira parte submetemos nossos pés a um scanner; depois, vai-se para a esteira com um tênis de teste da marca japonesa. A velocidade da esteira é programada segundo o pace habitual do corredor. No relatório, você fica sabendo coisas como as alturas do arco e do dorso do pé e os ângulos do calcanhar e do dedão em relação ao eixo do pé. Um gráfico compara essas medidas com a média dos brasileiros de mesmo sexo e faixa etária.

Adidas.  Informal. Dentro da ótima Run Base, é um simples scanner que registra suas pisadas rápidas sobre o solo. A leitura é feita num monitor, sem frescura, quase em tempo real. A impressão plantar mostra os pontos de contato do pé com o solo.

Importante: todos os quatro testes são gratuitos. É claro que a tentação de sair com um tênis da marca após o exame é grande. E eu cheguei às vias de fato, devo confessar – ops, olha o santo aí de novo se fazendo verbo –, na Velocità.

Devia fazer suspense, mas não sou bom nisso. A marca do lindo tênis verde-limão que eu levei pra casa na Velocità foi Saucony.

Que, como J Pinto Fernandes, não tinha entrado na história.

 

 

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

8 Comentários

  1. andrea

    Uso o Saucony há anos. O melhor tenis em materia de amortecimento. Espero que vc goste. Nunca mais vai querer outro rs.. Minha pisada é supinada, o oposto da sua, e fez toda a diferença na performance e no conforto.

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  2. paulo araujo

    paulo eu fiz um teste simples e foi detectado que tenho pisada pronada.

    sinto dores no calcanhar quando caminho e corro.

    se possivel envie o endereço da ASISCS em sp para eu ir fazer teste de pisada.

    grato

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    • Paulo Vieira
      Paulo Vieira

      Paulo Araujo, a Asics fica na Oscar Freire, 1082, Jardins. Boa sorte e grande abraço

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  3. Gisele Yumi

    Você precisou agendar para fazer os teste de pisada?
    Pode fazer o teste e não comprar na loja? É normal isso? ou é vista de má forma?

    Estou pensando em conhecer a loja da Asics e Velocità. Os preços são bons?

    Obrigada

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    • Paulo Vieira
      Paulo Vieira

      Olá, Gisele, não, não é preciso agendar e também ninguém é mal visto se não comprar nenhum tênis. Quanto aos preços, isso vai de cada um, mas a Velocità, que é multimarcas, tem boas promoções. Você pode olhar no site deles: velocita.com.br. Abs.

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  4. Igor Saburo Suga

    Mas e no final das contas: vale mesmo a pena todas essas informações sobre o pé ou pisada e comprar o tênis mais “adequado” para ele ou musculatura e a mecânica de corrida é mais importante? Nunca comprei um tênis feito para a minha pisada então tenho uma tendência a acreditar nas forças das pernas e pés.

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    • Paulo Vieira
      Paulo Vieira

      Te conto minha experiência, Igor. Apesar de ser brindado com a tal pronação severa num dos pés, sempre usei tênis neutro. Minimalista, para ser mais preciso. Jamais senti qualquer incômodo ou dor.

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