Corrida com Abramovic

Paulo Vieira

Os comentadores da corrida gostamos de destacar aspectos técnicos da coisa: treino intervalado, split negativo, lactato; paradas ligadas a objetivos: redução de tempo, aumento de quilometragem, conclusão de provas; e o milhão e meio de blogueiros vão na onda social/Instagram/olha como eu tou fofo com meu Prophecy novo.

Shame on us: somos uns malas, uns verdadeiros baús sem alça.

Uma das coisas que muito me interessa na corrida é bem outra: é o que vai pela cabeça. Pensa: o sujeito fica 40 minutos, 1 hora, 2 horas e mal consegue se lembrar do que pensou nesse tempo solitário, sem filho, TV, internet, celular. Detox total. Um privilégio meditativo que jogamos fora.

Já sugerimos aqui maneiras de anotar as ideias, os lampejos que podem surgir ao longo da corrida.

Pois eu vou tentar ser mais radical. À maneira da performer Marina Abramovic, que tem grande retrospectiva em exibição no Sesc Pompeia, em São Paulo, procurei memorizar um pouco do que foi minha corridinha de 4K em torno da raia de remo da USP ontem, aquecimento para umas remadas no barco-escola. E vou reproduzir isso agora, no jogo da artista sérvia.

Vou te pegar, nasdaraviè
Vou te pegar, nasdaraviè

Seria, de maneira enviesada, um exercício de meditação, desses que a gente tenta se concentrar na respiração e evitar que qualquer pensamento venha à nossa cabeça. Bagulho bem difícil. Abramovic fez um pouco diferente: observou todos os seus movimentos, sem pensar sobre eles, e os descreveu, excruciantemente. Agora é a minha vez:

– Duas entidades discutem na minha cabeça o momento em que a caminhada se tornará corrida. Logo meu pé direito (ou terá sido o esquerdo?) acelera o passo, dando início à coisa.

– Já na grama, reduzo a velocidade para driblar os longos barcos que fecham a passagem pelo gramado, me obrigando a me esgueirar entre eles e o barranco.

– Viro cerca de 45 graus a noroeste e meus pés encontram a grama mais alta e úmida.

– Encontro um singletrack que logo dá numa faixa de asfalto.

– Meu pé esquerdo encontra o que parece ser uma pequena pedra e puxo a perna em ato reflexo.

– Olho para o lado direito, vejo a placidez da água da raia. Nenhum barco a navegar.

– Penso nas capivaras.

– Vejo três capivaras.

– Uma delas, a menor, se vira de costas e inicia uma fuga, sustada em 1 ou 2 segundos.

– Começo a ouvir o ensaio de percussão dos alunos de engenharia.

– Engenharia? Será que são de engenharia mesmo, pergunto a mim mesmo.

– Passo pelos batuqueiros. São dois os grupos, o primeiro, à minha esquerda, maior, com surdos e caixas de guerra.

– Viro 90 graus à direita, acompanhando o final da raia; faço um calculo mental da extensão desse trecho, e não chego a conclusão acurada. Talvez 70 metros.

– Viro 90 graus outra vez à direita. Agora volto pelo corredor entre a raia e a Marginal Pinheiros. Vejo ao longe o relógio digital de um banco na ponte Eusébio Matoso. Não consigo ver o horário, o que, de qualquer forma, seria uma informação completamente ociosa.

– Noto a irregularidade no terreno e os pequenos excrementos, suponho que de capivaras.

– Reflito sobre como as capivaras chegaram até lá, dado que todos dizem que as águas da raia não se comunicam com as do rio Pinheiros.

– Presto atenção à minha esquerda, olhando os grandes canos e as galerias subterrâneas. Vejo um cano, mas não fica claro que ele vem do rio.

– Alcanço dois remadores alinhados comigo na água num caiaque e passo por eles. Calculo mentalmente meu pace abaixo dos 5min/km.

– Chego até a placa que sinaliza aos carros da Marginal que falta 1,2K até a ponte da USP. É mais ou menos a mesma distância que me falta até virar outros 90 graus à direita.

– Um segurança cruza comigo lentamente, de bicicleta. Penso que sem bicicleta ele estaria em maus lençóis. Penso que ele não seria capaz de correr como eu. Penso no que ele faria se começasse a cair uma chuva torrencial, com raios e trovões. Penso que naquele ponto, caso precisasse de abrigo, ele teria de andar exatamente 2K.

– Surge a placa que anuncia que faltam 700 metros para a ponte da USP.

– Calculo mentalmente de novo minha velocidade. Penso que não aguentaria essa tocada por muito tempo, talvez não chegasse a 10K.

– Lembro do teste espirométrico. Fico pensando se abortaria de novo a coisa no meio do esforço, com pânico de sentir falta de ar. Concluo que talvez queira fazer de novo.

(concluir que talvez queira é bom)

– Aparece a placa de 300 metros. Olho adiante e vejo se são 300 metros que me faltam até virar 90 graus novamente à direita.

– Viro 90 graus à direita sem ter muita certeza se faltavam 300 metros ou 200 e alguma coisa.

– Olho para o chão.

– Viro 90 graus à direita e ganho a última seção do percurso. Olho rapidamente em direção à avenida da Universidade, à esquerda do alambrado. Não vejo nenhum carro passar.

– Um corredor, que suponho sem certeza ser um colega do curso do remo, passa por mim, na direção contrária.

– Noto que finalmente cai a noite quando deixo o asfalto pelo singletrack.

– Outra corredora vem em minha direção e preventivamente ofereço o singletrack a ela, o que me obriga a mergulhar o minimalista numa poça de lama.

– Passo pelo primeiro barco-escola, privativo dos alunos do Clube Paulistano. Tenho a impressão que do Clube Paulistano. Vejo que os quatro lugares do barco estão ocupados.

– Desacelero. Penso na diferença do esforço aeróbico entre o trote e a caminhada. Fico admirado em notar como passos no mesmo ritmo podem ter exigência aeróbica tão distinta.

– Termino no bebedouro. Uma família de cães posiciona-se ali.

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Paulo Vieira

Paulo Vieira corre pelas ruas de São Paulo desde os 15 anos e pelo mundo desde os 32, quando passou uma temporada em Londres. Adora correr em estradas rurais, descobrir novos caminhos e ir e voltar do Pico do Jaraguá. Mas agora anda frequentando também treinos no Parque Villa-Lobos às 7 da manhã com seu tênis minimalista - desde que a Lusa não jogue na véspera.

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