Longão, a história por trás

Paulo Vieira

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Faustão era bem mais engraçado no pobre “Perdidos na Noite” do que na Globo. Adnet, mesma coisa na MTV. Há outros exemplos. A Globo é uma TV tremendamente careta e conservadora, no que talvez apenas reflita a caretice e o conservadorismo de seus usuários.

Mas o que quero dizer é outra coisa: que a falta de recursos não é condição essencial para a criatividade.

Se fosse assim, este remediado pasquim eletrônico já teria arrebatado todos os prêmios possíveis na internet galáctica.

Mas como a criatividade parece não cair do céu mesmo com todas as rezas do senhor Geraldo, tenho de me cercar de gente que realmente sabe das coisas.

Como o sujeito que, em resposta a uma reclamação de uma leitora, escreveu o texto abaixo.

Cara Sra.,

Bem vejo, e louvo, Vossa posição. Permita-me colocar a minha. Tentarei ir direto ao ponto, para que a Senhora sinta-se estimulada a seguir lendo este blog.

Razões, dou-lhe algumas.

Dando a primeira, em preliminares, não tome o “Senta a Bota!” como oficial orientação da revista Runner’s World Brasil. Trata-se de blog hospedado no sítio eletrônico da publicação. Como tal, expressa, ressalvada explícita indicação oposta, minha opinião.

Dando a segunda, entendo Vossa preocupação com questões que conduzam à decantada degradação da vida social hodierna. E, asseguro-lhe, também busco pautar-me por pilares éticos rijos, de modo a manter sempre ereta minha conduta moral. Tomar de somenos a pornografia como fim em si decerto é preservativo nodal dos bons costumes.

Dando a terceira, e, aqui, talvez me demore um pouco mais, o blog “Senta a Bota!” (garanto-lhe, não há na denominação dada ao blog qualquer conotação sexual) é voltado a corredores amadores que buscam performance.

No mais das vezes, um dos pontos centrais do planejamento semanal desta considerável parcela de leitores é o treino longo, assim conhecido justamente por ser de comprimento exuberante.

Nos meandros da prática esportiva, este treino ganhou a alcunha de “longão” (e já não posso garantir-lhe que referida denominação não tivesse conotação sexual, porque não fui eu que a dei, embora sinceramente acredite pela negativa).

A denominação, pese embora vulgar, espraiou-se dentre corredores e triatletas, que anseiam pela execução do tal longão.

Ainda que a periodicidade em que o longão é posto à prova seja algo extremamente pessoal, tornou-se hábito que a prática desenvolva-se aos sábados ou domingos, por ser muito duro e gerar considerável desgaste físico (não será raro encontrar, para desespero do cônjuge, quem, assim que acabada a prática, fique prostrado na cama).

Atente para o fato de que o ponto nevrálgico do texto não se destina a incitar, senão apenas por via reflexa, “a melhora da qualidade de vida como um todo”, quanto menos “a qualidade da vida sexual de quem pratica corrida”, como a Senhora sugeriu (confesso, notadamente quanto a este último tópico, que o pudor que me acomete deixar-me-ia desconfortável de tratar publicamente destas questões, embora reconheça que se trate de tema do mais alto relevo).

Nesta seara de ideias, e para que leitores tenham um lugar virtual em que possam debater as suas, foi que me ocorreu colocar no ar, justamente aos sábados e domingos, um post voltado à questão. Os trocadilhos, e deveras os há, não têm intenção outra que a de tornar cômicos e mais palatáveis o longão, seus pormenores, e o que os envolve.

É que longões há para todos os tipos e gostos: uns com ritmo mais forte, outros mais cadenciados, os que ficam num vaivém frenético para treinar variação de velocidade, e também os feitos em movimentos circulares, quando percorridos integralmente em pista de atletismo.

Os tamanhos igualmente variam, conforme o objetivo final. Parte dos longões sobe gradualmente e há os que sobem de modo abrupto, tudo com o intuito de treinar corrida em aclive, em técnica consagrada por Emil Zatopeck, nascido na República Tcheca (aqui, hei de concordar com a Senhora, difícil acreditar que não tenha havido conotação sexual na denominação dada ao país).

E corredores, como, de resto, o homem médio, têm especial apreço por contar seus feitos.

O blog pretende-se a Ágora cibernética que dê azo aos temas expostos. E assim tem sido. Tanto é que, não raro, erguem-se os membros leitores em viris discussões acerca dos tópicos aludidos, e nada há que faça amolecer esta veia aguerrida.

Se fui grosso, asseguro-lhe, foi antes por empolgação que por intenção. Caso a Senhora tenha se sentido ofendida, apresso-me a rogar, desculpe-me por todo o imbróglio.

Atenciosamente e sempre à disposição,

Iberê de Castro Dias

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Fundamental dizer que a identidade da Senhora foi preservada no blog. O autor pode ter tido veleidades autorais em sua resposta, de resto um primor de argumentação, mas tomou cuidado para não expor o nome da reclamante.

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É difícil até ser escada para um cara desses. Mas o sujeito faz coisas ainda melhores, ou do mesmo nível, fora do universo da corrida. Como você pode ver  aqui.

A coluna “Senta a Bota”, que era publicada no portal da Runner’s, passou depois a se chamar “Intervalado” e, embora Iberê desde janeiro escreva uma coluna mensal na revista Men’s Health, ela continua no ar, aqui.

O sistema de busca é primário, mas, fuçando, dá para achar a reclamação da tal Senhora, que se indignou, entre outras coisas, com o uso de uma foto do Nuno Leal Maia à guisa de ilustração do tal “longão”. Eu atalhei pelo google. Está  aqui.

Caso entre no link, perceba que a versão da resposta do Iberê é um pouco menor. Foi editada. Com anuência do autor, a íntegra vem a lume pela primeira vez aqui pelo JQC.

Imaginei que usar uma foto do Nuno Leal Maia, exatamente a mesma que provocou tanto ranger de dentes, iria trazer um temporal bíblico de acessos para este pasquim. Foi o que tentei neste post sobre o meu próprio longão.

Esforço debalde.

Talvez agora em contato com alguém que realmente sabe o que tem nas mãos eu amplie mais os canais.

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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