Correr muito mata?

Paulo Vieira

Dois amigos foram lépidos para enviar a notícia. Ricardo Lombardi, o alfarrabista, o homem que matou a cobra e mostrou o pau – entenda-se por cobra a maratona de Amsterdã de 2014 –, leu na Time, já na segunda-feira; Carlos Bozzo, o andarilho, viu a matéria no Globo, jornal que não se furtou a dar a notícia com um dia de atraso.

A notícia era: segundo estudo publicado por pesquisadores dinamarqueses no Journal of the American College of Cardiology, quem corre mais de três vezes por semana, ou faz tiro, ou mantém um pace forte, algo que pode ser traduzido grosseiramente por “correr muito”, tem tanta chance de morrer quanto um sedentário.

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De vez em quando o coração não suporta, e a corrida é o vetor mortal, como aconteceu com um de seus principais prosélitos nos anos 1980, o americano James Fixx, autor do canônico Guia Completo da Corrida. Assim acontece também com adeptos de outras atividades que exigem demais do velho músculo. Spinning, por exemplo. Houve um caso semana passada numa academia, houve outro numa Bodytech paulistana ano passado.

Dois casos num universo de milhares, dezenas de milhares, talvez. Conheci uma pessoa que não viajava de avião, apesar do risco estatisticamente risível, de um acidente; mas andava de carro e ônibus. Não dá para dizer que agia como o sedentário do estudo dos dinamarqueses, que poderia argumentar: “melhor não fazer nada para não sobrecarregar o coração”.

Não fazer nada é a melhor maneira de correr riscos, como se sabe – e o estudo ratifica isso; já meu conhecido não subia aos céus por pânico, por se sentir mal. Talvez achasse também ridícula a estatística de letalidade aérea.

O estudo,  que coteja medições de uma década de cerca de 5 mil pessoas, 20% delas corredores, mostrou que as pessoas de menor risco de morte durante o tempo de pesquisa foram as que correram num ritmo moderado, até três vezes por semana, numa rodagem máxima de 2,4 horas. Quanto ao risco do corredor casca grossa ser igual a do sedentário, a novidade do estudo, essa informação está bastante sujeita a contestações.

Como bem dissecou o Ultraman Rodolfo Lucena em sua coluna na Folha, são apenas 127 os corredores casca grossa contemplados no estudo – e isso, afinal, enseja novos estudos.

“Estudos similares são recomendáveis”. Foi isso o que disse Iberê de Castro Dias, o juiz voador, o sujeito que corre maratonas abaixo de 2:45 – e portanto estaria no grupo de risco – e está ajudando adolescentes a se livrar da droga, do crime e até da prostituição justamente com a corrida de rua, atividade que apresentou aos garotos via projeto Sua que é sua, que ele mesmo contou aqui, mas não custa reproduzir um trechinho:

“Todos são psicologicamente muito frágeis. Muito instáveis. Histórias de vida de passar uma semana chorando ao ouvir. O liame entre ir para a corrida e ficar no pancadão cheirando pó é muito tênue. É um estalo. Ver que a vasta maioria realmente foi (para a corrida) e ainda arrastou mais dois foi legal.”

Pois bem, voltando ao estudo, eis o que disse o Iberê, que além de todas essas credenciais, acompanha como ninguém estudos, pesquisas, novidades e recordes do atletismo.

“A pesquisa é relativamente surpreendente. Digo ‘relativamente’ porque já se sabia que exercícios intensos e prolongados não são o mais recomendável à saúde. Mas a indicação de que três vezes por semana já pode anular os benefícios da prática esportiva é algo novo. Acho que outros estudos similares são altamente recomendáveis para que os resultados sejam confrontados.”

Esperemos em assembleia permanente por esses estudos, destarte.

O lead no pé foi proposital.

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Paulo Vieira

Paulo Vieira corre pelas ruas de São Paulo desde os 15 anos e pelo mundo desde os 32, quando passou uma temporada em Londres. Adora correr em estradas rurais, descobrir novos caminhos e ir e voltar do Pico do Jaraguá. Mas agora anda frequentando também treinos no Parque Villa-Lobos às 7 da manhã com seu tênis minimalista - desde que a Lusa não jogue na véspera.

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