Sem nhem-nhem-nhem

Paulo Vieira

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Estava aqui me preparando para escrever sobre corridas à noite. Com esse calor intransponível que vem fazendo, só resta acordar com as galinhas, o que não é para qualquer um, ou atacar à noite onde for possível. Foi o que fiz ontem, 10 ou 11K só, num cenário que conhecia de dia, o Parque Villa-Lobos. Claro que também há o muvucado Ibirapuera, a USP em dia de aula, o Parque do Povo Wasp e o High Line brasileiro, o Minhocão.

(Peço perdão ao pessoal de outros estados, mas vocês são melhor servidos: a orla do Rio, a de Salvador – embora eu tenha visto o pessoal correndo mesmo entre os carros na Oceânica e até no Largo do Campo Grande! -, a de Maceió…)

Mas aí me deparo com uma postagem da empresa de equipamento esportivo Salomon no facebook do JQC e sou apresentado a uma modalidade de corrida chamada skyrunning, em que uma jovem sueca, 27 gloriosos aninhos, patrocinada pela marca, pula de pedra em pedra, de precipício em precipício, com a soltura de uma gazela.

Sorria, você está na montanha/Skyrunning.com
Sorria, você está na montanha/Skyrunning.com

E aí fico com uma inveja dos diabos. Toda aquela minha peroração sobre os 4,5K da subida do Pico do Jaraguá vira conversa de criança. Criança urbanoide. As minhas arregadas nas pirambeiras de Gonçalves, então… Pelo menos posso dizer: isso aí não é pra mim, pois quando me aventuro na montanha, logo fraturo o quinto metatarso.

Também posso dizer: é, mas não tinha um tênis trail, tipo os da Salomon, no pé lá na Serra da Balança.

Corrida na natureza é tudo, e não faltam exemplos aqui neste pasquim eletrônico, como o do Zé Manoel, o biólogo biônico. Mas a história da Emelie Forsberg, essa sueca corredora, é de fato inspiradora. Tudo o que a CNN, que produziu a reportagem, e qualquer outra empresa de mídia gostariam: menina linda, branca, altiva, bem criada, cenário maravilhoso, amor à natureza, essas paradas.

Melhor que isso só a história de alguém como a professora Dian Fossey. Enfermeiros e religiosos na Serra Leoa não dão tanta audiência.

Emelie conheceu a modalidade há dois anos, quando terminou a faculdade, e já ganhou títulos como estreante (tal qual nosso mítico maratonista penapolense Solonei Silva, que adora correr no calor, vai vendo). No ano passado levou a Copa do Mundo de skyrace, levou também a Eurocopa de skyrunning e ganhou outra Eurocopa, a de skyrunning de ultradistância. Fico devendo qual é a diferença entre skyrunning e skyrace, o painel de comentários está à disposição para quem tiver a moral. Sei que não é permitido usar a mochila propulsora antiquenianos de que falamos ontem.

Na fala final do vídeo, ela comenta da estreia na prova de 100 milhas (160K). Revela que quis interrompê-la aos 60K, mesmo sem estar cansada, sentindo dor ou com problemas estomacais. Depois, convencida pela equipe no ponto de descanso, decidiu continuar. Finalizou sem problemas. “Muito está na cabeça”, ela diz, na minha tradução tabajara.

O vídeo ainda tem um plus: o perfil do Kelly Slater. Logo logo vão descobrir o Gabriel Medina.

E, quem sabe, a nossa Zilma. É, com Z.

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

2 Comentários

  1. celina celia de araujo

    Lindo maravilhoso……

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  2. celina celia de araujo

    Adoro esse tipo de corrida.

    Responder

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