O alfarrabista

Paulo Vieira

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Ter completado este mês sua primeira maratona “para” quase cinco horas, 4:49:48 mais precisamente, não foi o principal feito recente de Ricardo Lombardi, jornalista boa praça que passou os últimos 20 anos nas redações do Estadão, da Bravo, Guia do Estudante, Vip, AOL, Yahoo.

Inferência minha, e só minha, pois ele não me disse isso, o principal feito recente desse palmeirense retinto foi assumir o sebo Desculpe a Poeira, também nome de seu blog hospedado no Estadão, como sua principal atividade econômica.

Para isso, deixou o cargo de “head of midia” no Yahoo, onde ficou menos de um ano.

O alfarrabista antes da batata
O alfarrabista antes da batata

Não é corriqueiro que jornalistas larguem, ou ao menos interrompam, a carreira para assumir um sebo. Mais ainda quando dirigem empresas que, supostamente, vão sobreviver à derrocada do jornalismo tradicional, impresso.

E não é corriqueiro, entre outras razões, por conta da diminuição – drástica, creio -, daquilo que costuma vir todo dia 5. Mas a qualidade de vida e a aversão à burocracia e às planilhas de Excel falaram mais alto aqui.

O sebo é uma graça. Ocupa uma garagem de talvez 8 metros quadrados num predinho de um conjunto pitoresco numa viela de Pinheiros, São Paulo. Uma mesa na calçada defronte e duas cadeiras permitem que o visitante jogue conversa fora com o Ricardo, uma grande razão para ir até lá.

Conversa fora aqui significa, por exemplo, ouvir recomendações de leitura, coisa que ele faz no blog e, nada mais natural, agora também no sebo.

A maratona, a de Amsterdã, foi dura. Foi sua primeira, e ele só tinha corrido 34K uma única vez, num treino. Escolheu a capital holandesa por se adequar bem ao calendário e por não conhecer a cidade.

Ricardo diz que tentou manter um pace moderado no começo, na casa dos 6min/km, mas acabou acelerando. A conta foi cobrada em câimbras e choques nas batatas das pernas lá pelo 30, 31K. Ainda tinha chão para encontrar o pessoal da Run & Fun, que nos 35K das maratonas sempre distribui o “kit” batata assada + Coca-Cola + uns “vamulá, falta pouco”. Como bem sabe o Gesu Bambino.

Para completar a prova, encostou num competidor que ia no mesmo pace e com ele passou 7K proseando.

A corrida entrou na vida do Ricardo por um motivo, digamos, instrumental. Taxas altas e recorrentes de colesterol ruim e triglicérides, gordura no fígado, o pacote completo. As duas horas semanais de caratê não traziam antídoto aeróbico suficiente.

Tomou gosto pela coisa e fez um 10K da Nike no Rio com pace abaixo de 5min/km e logo depois a São Silvestre. Ao mesmo tempo, melhorou alimentação, largou o cigarro e nos últimos cinco meses se permitiu quatro taças de vinho.

Diz que não foi nada difícil deixar o cigarro e não está sentindo falta da bebida.

Perdeu 12 quilos.

Perguntei ao barbudão, que lembra um pouco o Ultraman, se também perdera outras coisas ao começar a correr.

(Sempre faço essa pergunta. Me incomoda um pouco certa unanimidade em torno dos benefícios da corrida. A panaceia. Mas eu gostaria de fazer a tal questão com a mesma entonação dramática do Antônio Abujamra no “Provocações”, da TV Cultura. Mais ou menos assim:

“Nome Composto, o que é

(pausa dramática)

a vida?”

Obrigado a elaborar algo profundo, o cara responde. Ao terminar, o Abu manda:

“Nome Composto, o que é

(pausa dramática)

a vida?”

O cara faz um esforço tremendo pra se livrar da questão, e lá vem o Abu:

“Nome Composto, o que é

(pausa dramática)

a vida?”

Embora Abujamra faça essa pantomima em todos os programas desde sempre, o convidado parece ficar algo chocado e bastante surpreso. Ter de elaborar três respostas diferentes para ESSA pergunta, pensa. Não deve ser visto por muita gente, o “Provocações”).

E o Ricardo me respondeu: “Acho que não, mas deixa eu pensar: talvez tenha perdido algumas horas de sono.”

Ele sempre vai dormir cedo, antes da meia-noite, então a perda deve ter sido pequena.

A propósito, Ricardo disse também que o sebo é sustentável.

Abaixo, o Abu e sua pantomima:

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

2 Comentários

  1. Chico Barbosa

    Se aparar a BARBA o coeficiente de arrasto vai baixar BARBAramente, Ricardo!!
    Parabéns, abraços, Chico

    Responder

  2. Pinho - Bauru, SP

    Muito bom! Um exemplo!

    Responder

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