A festa das multis e a solidão do corredor casmurro

Paulo Vieira

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Eu não esperava nada daquilo. Embora, é verdade, não tivesse qualquer expectativa sobre aquilo. A festa da Nike em São Paulo, anteontem, motivada pelo lançamento de seus novos tênis, um deles bastante famoso entre iniciados, o Pegasus, caberia bem para o lançamento de coisas muito diversas: um game, um disco dos Strokes (ou do Luan Santana), um aplicativo, um reality show de gastronomia, um acordo de cooperação técnica com uma universidade de Palo Alto.

DJs num púlpito, música alta, manobristas, smoothies. Troque o álcool – era manhã de sábado – pelo açaí e você tem uma ideia da coisa.

Eis uma novo significado para a expressão runner’s high.

Marilson (centro) e outras estrelas do atletismo na festa da Nike/Divulgação
Marilson (centro) e outras estrelas do atletismo na festa da Nike/Divulgação

Minhas filhas e a amiga da mais velha, que foram comigo, gostaram. Gostam de festa de adultos, claro, e curtiram fazer uma corrida estática tendo os passos registrados por uma máquina. Queriam que eu participasse de uma prova de 60 metros que era disputada sempre por três pessoas numa pista feita para a ocasião. Desconversei.

Felizmente já tínhamos passado pela Usp e treinado com os amigos do grupo JQC/Pacefit – ainda há vagas! Minhas filhas adoram pular corda e fazer o alongamento comandado pelo Zelão, e eu aproveitei que elas ficam à vontade com ele e fui fazer um tiro de 5K. Só 5K, pois eu ainda sofro com meus 58 dias parados.

Sempre achei que corrida fosse um negócio solitário, muito menos gregário do que a realidade/mercado tem mostrado que é. A festa da Nike só confirma o absurdo da minha hipótese.

Embora correr seja algo individual, cujo prazer solitário pode justificar até isto, parece que não há vida fora da muvuca, da celebração, do speaker, do DJ, do compartilhamento de marcas de treino, do intervalado de quarta comandado pelo Medalhão da Silva.

Solidão, algo que segue parecendo a este velho casmurro essencial na corrida, quase que a verdade dela, arriscaria dizer, quem captou bem foi Lina Chamie na abertura de seu filme, o “São Silvestre”, com aquelas tomadas de câmera subjetiva no Minhocão.

Mas se a Nike fez festa no sábado, foi a Adidas que celebrou grandão no fim de semana. Ontem, em Berlim, o queniano Dennis Kimetto, atleta de seu “cast”, quebrou o recorde mundial da maratona com 2:02:57. Kimetto baixou a casa dos 2:03, que persistia em Berlim desde 2008.

Tinha um final para este post que me pareceu bom em algum momento. Era assim: Parafraseando Vicente Matheus, parabéns à Adidas pelos Nike que nos mandou.

Se eu invocasse Brizola, mencionaria algo sobre perdas internacionais.

Acho que está na hora de rejuvenescer minhas referências.

 

 

 

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

Um Comentários

  1. @JoseAdolfo

    Venha conhecer o percurso Caminho dos Dinossauros de Uberaba (MG). Estrada rural de 19km até o Sítio Paleontólogo do bairro Peirópolis com treinos sempre no último domingo do mês. Seja bem vindo!
    http://www.acru.com.br

    Responder

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