Luto e silêncio na Usp

Paulo Vieira

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A morte do sr. Alvaro Teno, maratonista com recorde pessoal de 2:43:05, marca que talvez todos os leitores deste site jamais alcançarão, foi lamentada, sentida e tributada em diversos pontos do país. A ponto de a família, chocada e naturalmente enlutada, ter convocado uma coletiva de imprensa para hoje.

Eu, que estava na USP no momento aziago junto com o grupo de corrida – um dos nossos companheiros, testemunha ocular, estava exatamente atrás do Toyota Corolla que fez o tão relatado strike -, fui ontem ao velório de Teno no cemitério do Araçá.

Não tenho muito a acrescentar aos panegíricos. Sergio Xavier já falou da generosidade de Teno, Ricardo Chester descreveu-o como seu  “benchmark” no clube Paineiras, onde ambos treinavam.

O Paineiras, que não quis emitir qualquer pronunciamento no fim de semana, enviou duas coroas de flores ao velório.

No velório, perguntei ao filho homônimo da vítima de quem havia sido a ideia de colocar o tênis Patriot do pai junto ao caixão. “De todos nós e de certa forma também dele”, disse. “Corrida era a vida dele.”

A Asics não fez qualquer homenagem ao senhor Alvaro.

A história terá outros desdobramentos, um deles a possível aceleração de uma tomada de decisão da Usp em relação aos corredores. Até agora, como era de se esperar, a universidade não fez qualquer pronunciamento. Não há qualquer atualização no site da universidade desde sexta-feira. Nada que nos surpreenda. Por ora, vige o laissez faire laissez passer dos anos 2000, algo de que falamos aqui. As respostas absolutamente protocolares da Usp às nossas perguntas sobre a relação mal parada com os corredores publicamos aqui.

Atualização das 16h

Após a coletiva, o filho mais velho de Alvaro Teno, Alvaro Teno Júnior, revelou ao JQC que não pretende acompanhar o paradeiro de Luiz Antonio Conceição Gomes, o motorista que atropelou seu pai. “Só quero que a justiça seja feita”. Ele não sabia que Machado era pedreiro e disse que isso não deve mudar em nada seu destino.

Locutores de TV e rádio se apressaram, no fim de semana, a lamentar a impunidade no Brasil, recapitulando casos análogos que não terminaram com a prisão dos atropeladores. O réu da vez, contudo, é de classe social menos privilegiada, “gente diferenciada”, no jargão de Higienópolis.

Ele não havia constituído advogado até hoje, 72 dias após sua prisão, mesmo podendo sair da cadeia sob fiança de 55 mil reais. Hoje, na hora do almoço, ele foi transferido do 91 DP para o Centro de Detenção Provisória.

Muito solícito, Teno Júnior revelou que já foi treinado pelo pai, que o ajudou a perder 40 quilos, e que acabou se mudando para Blumenau, onde mora, após ter participado de uma corrida com o pai nessa cidade. Disse que Alvaro Teno “já chegava às 5 da manhã” ao clube Paineiras, onde orientava amadores a correr melhor. Uma parte da sessão era em esteira, a outra na pista de atletismo. O clube fez uma singela homenagem a Teno, colocando um vaso com girassóis e uma faixa com o nome de Teno na esteira que ele costumava usar.

O tênis Patriot que acompanhou o caixão no velório ontem não era o mesmo utilizado por Teno no dia em quer perdeu a vida. Segundo seu filho, o modelo da Asics era para ser usado em prova.

Atualização de quarta

Como noticiado em portais de imprensa, a Justiça acolheu, segunda à noite, o pedido do Ministério Público de São Paulo para que o réu Luiz Antonio responda por homicídio doloso, quando o ato de matar é considerado intencional. Ele havia sido indiciado primeiramente por homicídio doloso, cujas penas são mais brandas. Ele seguirá encarcerado até seu julgamento.

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

2 Comentários

  1. carolina

    Acho que com o caos que se encontra a universidade, greves e graves problemas financeiros, esse é só mais uma dor de cabeça que eles vão empurrar com a barriga até quando der.

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  2. Luisa

    O pior é pensar que a USP pode querer proibir o esporte lá dentro, ao invés das festas, bebidas, e pessoas que não têm a mínima compaixão pelos atletas e amantes do esporte.

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