Mario Sergio Silva e o muro dos 30K

Paulo Vieira

A discussão de ontem, sobre a maratona de 12 quilômetros, rendeu. Sérgio Xavier, em seu post de hoje no blog Correria, convida seus leitores a participar dela, perguntando onde está o “muro”, a barreira pessoal de cada um deles.

Eu disse ontem aqui que na volta de um treino de meu circuito Lapa-Pico do Jaraguá-Lapa pretendia quem sabe esticar até a USP, atropelando pelo menos 35K. Não deu pra passar do Bar do Gago, na Vila Anastácio, quando o Garmin acusou 30K.

E então fui falar com o professô. Mario Sergio Silva, dono da Run & Fun, explica o porquê de as coisas ficarem um pouco mais complicadas depois do quilômetro 30.

JQC – Existem as tais duas maratonas de que se fala, a verdadeira começando no 30K?

Mario Sergio Silva – Sim, é uma grande verdade. Até o 30K está todo mundo feliz, ou, se nem tanto, é a partir desse momento que a gente começa a ver no rosto e na performance do corredor sinais de que a coisa começa a complicar. Nessa hora a gente depleta nosso glicogênio, e o desgaste só aumenta com o passar do tempo. Você pode comer o que quiser antes da corrida, mas se não houver reposição nas duas primeiras horas da prova, não tem de onde tirar. A reposição de carboidrato é fundamental. (Leia mais sobre reposição aqui)

JQC – Mas há um componente psicológico também, imagino. Não sei, no meu caso, quem estava mais cansado no domingo, se meu corpo ou minha cabeça.

Silva – Nós falamos aqui em três aspectos. O fisiológico (acima), o tático, que é a definição da estratégia na corrida, e o psicológico. Definir a estratégia é muito importante, pois se o corredor faz um ritmo mais forte no começo acumula ácido lático além do suportável. É aí que a gente vê aquelas cenas nas provas de maratona, pessoas andando, cambaleando. Além disso, normalmente não conseguimos repor líquido na mesma quantidade da perda. Estima-se que um corredor produz 1 litro de suor por hora, mas só consegue repor 600ml nesse tempo.

JQC – Quanto ao psicológico…

Silva – A questão é que a partir do 30, do 32K, o corredor entra numa zona desconhecida. Nos treinos nunca se passa dos 35K, para não desgastar demais o corpo de quem se prepara para a maratona.

JQC – A partir de que momento deve ser feita a reposição de carboidrato?

Silva – Segundo padrões da “American College”, a cada 40 minutos. Dá para usar gel, batata, uva passa, isotônico, pílula de sal. Como em geral o suplemento de carboidrato e o isotônico são doces, no 35K gostamos de dar algo salgado para o corredor, como uma batata. Isotônicos são bons pois também repõem os sais minerais perdidos.

JQC – Se todos os corredores vão encontrar uma barreira fisiológica no 30, 32K, como é possível correr uma ultramaratona?

Silva – Eu acho que a grande maioria das pessoas que correm ultramaratona está apenas correndo riscos desnecessários. É preciso ter um biótipo apropriado, mais forte, para aguentar. Perna mais forte, estrutura mais forte e (um aspecto) psicológico monstro. Mas a maior parte das pessoas que faz ultra não pensa no dia seguinte e paga muito caro com lesões. Acho que o pessoal transfere para a corrida uma necessidade de autoafirmação. Quanto à barreira fisiológica, há maneiras de driblá-la no treino. Os atletas fazem bem menos ritmo, treinam para suportar distâncias, já preparam o corpo para repor as perdas que terão ao correr seis, sete horas. Mas depois dos 60K não há biótipo que aguente.

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Paulo Vieira

Paulo Vieira corre pelas ruas de São Paulo desde os 15 anos e pelo mundo desde os 32, quando passou uma temporada em Londres. Adora correr em estradas rurais, descobrir novos caminhos e ir e voltar do Pico do Jaraguá. Mas agora anda frequentando também treinos no Parque Villa-Lobos às 7 da manhã com seu tênis minimalista - desde que a Lusa não jogue na véspera.

1 Comentário

  1. Marcio

    “Eu acho que a grande maioria das pessoas que correm ultramaratona está apenas correndo riscos desnecessários”. Essa frase é algum tipo de piada? O assunto é uma maratona e o cara fala isso? Quer dizer que correr maratona é seguro? Entender a motivação de se correr pode até ser uma questão pertinente, mas tenho certeza que ninguém corre longas distâncias sem saber que corre riscos diversos… Sobre a questão de como é possível correr uma ultra, acredito que se trata da frequência em que se faz reposição de carboidratos e água. Li no blog da training peaks (por sinal, recomendo a leitura) que em corridas de 100 milhas (aprox. 161 Km) é comum ingerir algo como 65 pacotes de gel, o que acaba sendo, proporcionalmente, muito mais do que o que se sugere para maratona (http://home.trainingpeaks.com/blog/article/six-things-to-consider-if-you-want-to-run-an-ultramarathon).

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