Aos césares o que é dos césares

Paulo Vieira

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Ele foi o último passageiro a subir no ônibus clandestino que partiria rumo a Picos naquela manhã de nuvens baixas e carregadas. O olhar desencantado em direção ao gigantesco prédio que se erguia rapidamente defronte ao bar do Gago, que aos domingos se transformava em animada rodoviária, podia significar um enorme cansaço diante do avanço irrefreável da especulação imobiliária até para aquele pedaço qualquer nota da Vila Anastácio.

Também poderia significar, e isso não dependeria de artes oniscientes de narradores ordinários, que ele estava para cumprir naquele velho Mercedão a profecia para a qual estava jurado desde que chegou à Lapa havia três décadas.

JC partiu daqui - eventualmente
JC partiu daqui – eventualmente

Eram aqueles tempos de Copa, e ele não teve como se furtar a bisar os comentários de praxe com o colega da fileira 33. Na viagem de três dias e duas noites teria horas intermináveis, aliás, para contradizê-los, reafirmá-los e contradizê-los uma e outras vezes mais. As dificuldades de Julio César, os furos na zaga dos romanos, o avanço dos teutões a leste e dos godos a oeste. “Quem diria que os suevos seriam eliminados de cara?”, disse.

“Acho que os godos vão dar trabalho. Sempre dão.”

O zero a zero no contestado segundo pálio não o abalou. “Quem já passou por adversidades de verdade não se reconhece no primeiro Ochoa. É um resultado positivo. Baixa o oba-oba e cria resistência para a hora que nos jogarem sal e vinagre nas escaras.”

A excessiva dependência do grande astro não parecia-lhe uma questão. Ainda que facilitasse as coisas:

“Se tivéssemos três como ele, a História seria uma tranquilidade.”

O ônibus deu solavancos – caquético como era, sempre dava, a bem da verdade, mas foi preciso fazer aqui uma marca dramatúrgica. Foi mal.

“Isso sim é que é um especialista, repare como o motorista conduz esta porcaria com mão firme, fumando e brincando com seus ‘pets’ ao mesmo tempo.”

O que seria mais difícil: guiar aquele traste pelas estradas que um dia já foram o orgulho do território ou comandar seu afamado séquito?

“Não tem comparação, isto aqui é muito mais difícil. O motorista lida com vidas humanas, é responsável por elas. Não que, sinceramente, pareça agora muito preocupado com isso.”

Os xingamentos aos césares nos jogos e nas festividades, isso afirmou não lhe dizer respeito.

“Aos césares o que é dos césares.”

Depois de mastigar algumas dezenas de folhas de cevada, tendo o cuidado de deixar o bagaço no velho cinzeiro de braço, profetizou:

“Nosso principal problema é a zaga. Que fica exposta porque os volantes não conseguem cobrir os avanços dos nossos laterais em seus rompantes expansionistas. Seria melhor compactar o grupo, mas é impossível estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Flancos hão de haver.”

Ele estava curioso para saber como seu pai teria se saído, colocado que fora à prova, à alguma prova que não quis revelar, naqueles dias. Nem mesmo, descobriu-se depois, a proximidade de Judas Tadeu e outros que tempos mais tarde seriam tidos como santos e profetas, o acalmava.

No terceiro dia, quando o ônibus fez uma parada num posto Graal, ele tirou de seu embornal o que parecia um lote de cartões de visita e o entregou a seus interlocutores. E os saudou com frases enigmáticas.

O cartão de visitas dizia:

“J.C. – Eventualmente”.

Alguns meses após os sucessos aqui relatados, o bar do Gago deu lugar a uma loja de cafés especiais.

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

Um Comentários

  1. Antonio Bellas

    Sensacional! Sou leitor diário do blog, e desta vez, se superou!
    Merece continuação….

    Responder

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