Volta por cima

Paulo Vieira

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A jornalista e professora da Fundação Casper Líbero Tatiana Ferraz terminou 2013 com uma pain in the back, digamos respeitosamente. Caiu da escada em casa e fraturou duas vértebras. Para quem corre, para quem adora correr, como ela, ficar de molho, o que necessariamente se seguiu ao acidente, é uma coisa inconcebível. Impensável. Indigna. O fim do mundo, o fim da linha, o cul-de-sac. Uó.

Mas Tatiana sobreviveu e, poucos meses depois deste relato para o JQC, correu uma meia maratona para contar a história. Tatiana esteve este domingo nos 21K da Mizuno, em São Paulo.

Com alguma licença poética, sua recuperação lembra a empreitada que o nosso eterno Touro Indomável teve de encarar após aquela chuva noelina.

Passo o bastão.

Com arroz e feijão para queimar
Com arroz e feijão para queimar

Levanta, sacode a poeira, calça o tênis e dá a meia maratona por cima!

Depois de correr cinco meias e uma maratona, posso afirmar agora com total convicção: o pré-ritual é obrigatório! Talvez seja mania de velho, ou superstição, mas tudo começa na véspera: comer, dormir, relaxar.

Ah, como é bom ter desculpa para comer arroz e feijão no almoço, macarrão no jantar. É o álibi perfeito! É preciso ter reserva de energia! É claro que a gente come muito mais do que precisa, mas treina tanto, corre tanto, manera tanto nos outros dias da semana… deixa eu comer aquelas duas pratadas sem peso na consciência, vai!

Vamos para o segundo capítulo: as bolhas. é preciso colocar ataduras nos pés e meias que reforcem a parte do meio.

Aí tem de besuntar o corpo nas partes mais sensíveis: passar creme ou vaselina onde o top pega na pele, onde há as costuras do shorts, tudo para que, ao final de não sei quantas mil passadas, não fique tudo em carne viva.

Aí tem os equipamentos de bordo: o celular (não esqueça de carregar!) com as devidas músicas, o papel higiênico para usar nos maravilhosos banheiros químicos, o gel cheio de carboidratos e proteínas para tomar depois dos 9K, o protetor de orelhas caso o frio esteja intenso, a graninha para o estacionamento ou para o guardador de carro. Pronto, acho que não esqueci de nada. Ah, sim! A corrida!!!!

Para mim, essa meia maratona tinha um gosto muito especial. Era a primeira corrida longa depois de ficar quase quatro meses parada. Para quem sempre fez esportes e é viciada em endorfina, ficar parada por tanto tempo tem efeito devastador.

A pior coisa para um atleta, inclusive o atleta amador, é se contundir. Uma sensação de impotência, de que o mundo não é justo, de que tudo acontece só com você. Mas passa.

Voltei a correr no final de fevereiro, com aquela sensação de que teria de começar tuuuuuudo de novo. Em parte é verdade. Cansamos fácil, ficamos doloridos. Mas evoluímos muuuuito mais rapidamente do que quando começamos a correr. Parece que o corpo lembra de como é, e em pouco tempo a gente consegue correr longas distâncias e pensar em retomar a evolução que tínhamos antes de parar.

Na minha primeira meia maratona, cerca de um ano e meio atrás, fiz um tempo em torno de 2:30′ e algo. Depois evoluí para 2:18’, 2:16’, 2:12’, a glória. Essa meia de domingo eu consegui fazer em 2:20’, resultado que considero maravilhoso.

Cheguei inteira, chorando nos 500 metros finais. Quando virei na curva do Jóquei e visualizei a enorme placa de CHEGADA, um filme passou pela cabeça… o tombo, a dor, a cama, a maratona (ter corrido 42K em 5:18’ em outubro é um capítulo à parte: ainda não decidi se vou fazer de novo, rs), os exames, os remédios, os choros, o apoio da família, os quilos ganhos e depois perdidos, a volta aos treinos, o esforço.

É uma “estupidez divina” conseguir do próprio corpo uma recompensa. É a cabeça premiada com um corpo que faz de tudo, reúne todas as suas forças para fazer com que a gente, depois de tanto esforço, cruze a linha de chegada.

É estúpido e irracional, mas é lindo poder usar a “máquina”, o corpo, para provar algo a si mesmo.

Dá pra entender? Acho que quem corre entende. Snif.

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

3 Comentários

  1. Milton M Mendes

    Nem tem o que falar Tatiana. Como Presidente do seu fã Clube sou muito suspeito para falar da tua conquista! Eu seria aquele pai super-protetor. Então melhor não dizer nada. Ou melhor… Um muito obrigado seria de bom tamanho. A tua torcida uniformizada agradece todo o teu empenho em realizar o que esperamos de você!
    Beijos tão enormes quanto a tua força!

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  2. marcia

    Tati minha musa inspiradora, quero esta sensação boa e indescritível, vou correr contigo!!!

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  3. Milton T.

    Superação e disciplina, itens essenciais para se retomar a atividade, parabéns.

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