Protagonista da própria história

Paulo Vieira

“Sejamos os protagonistas da nossa própria história”. Era com essa frase de efeito que o então recém-empossado presidente da Abril S/A julgava estimular seus comandados a enfrentar as quedas generalizadas de receita publicitária e vendagem de revistas que marcaram o ano de sua chegada à empresa e todos os outros que se seguiram.

Fabio Barbosa, que claramente gosta de se comunicar, alugou algumas vezes um grande teatro em Pinheiros para exibir números e colar algumas frases de incentivo que a audiência de executivos e gerentes, eu entre eles, deveríamos repassar a nossos comandados.

Não ajudou muito a mudar o quadro de derrocada geral na Abril, aparentemente, mas o “protagonista da própria história” teve o condão de voltar à minha cabeça sábado à noite, quando eu cruzava a porta da USP vindo da ponte da Cidade Universitária.

Ou seja, quase dez meses do dia da minha demissão. Decidida aliás, não exatamente pelo protagonista da minha própria história.

Águas passadas. A frase voltou, basicamente, por dois motivos.

a) eu estava para disputar uma prova de 10K, a Energizer Night Race, nada mais comezinho para o povo que corre regularmente, mas, que, curiosamente, é sempre o ponto alto, o “derby”, o jogo decisivo. Eu já disse muitas vezes aqui que não corro para disputar provas, mas, de fato, é impossível ficar impassível – rá – diante de algumas milhares de pessoas se aquecendo, compenetradas no, esta é dura, objetivo comum. Num hipotético filme da minha própria história, há chances de uma corrida, esta por exemplo, sobreviver à edição.

b) tinha uma banda lá. Tocava covers. Anos 80. A minha década. Não gosto muito de Erasure ou Fine Young Cannibals, e o vocalista fazia um esforço considerável nos falsetes, mas aquilo, no final das contas, falava comigo. Phoda. Não sei se essas bandas entrariam na trilha do tal filme. Vai saber.

Com tudo isso, o clima de congregação, tão comum nessas provas, foi pro vinagre. Ao menos pra mim. Eu fui sozinho e sozinho corri. Nem o Garmin, que deu pau, me fez companhia. Estimei meu tempo, que era inegavelmente o meu grande estímulo, em algo na casa dos 47′ para o 10K.

Não havia como ter muito prazer com o cenário, de resto conhecidíssimo meu, sempre dentro do campus. O que só ajudou na vontade de baixar o meu “lactato“.

Eu vou, eu vou, correr com uma head lamp agora eu vou
Eu vou, eu vou, correr com uma head lamp agora eu vou

Como tinha de passar na padaria perto de casa antes que ela fechasse, não deu tempo de ficar fazendo o pós-coito no “lounge”. Pena: não seria o primeiro a concordar com quem diz que a gente só corre pelo prazer de parar de correr, aqueles hormônios todos no corpo. É similar ao sexo.

Protagonista da minha própria história, declinei da apresentação completa da banda. Devem ter tocado “New Sensation” e “Don’t you forget about me”, mas eu já estava em outra.

Depois de deixar as baguetinhas em casa – a última fornada da Natalina -, recebi um sms da organização da Energizer.

Tinha nele o meu tempo, 46’10”, meu recorde para a distância.

Fabio Barbosa, te devo essa.

PS – Dá uma chegadinha no canal do JQC no Youtube. Tem vídeos muito nossos lá, inclusive esse aqui, para os fãs de Darth, Skywalker, Oxóssi, esses caras:

 

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Paulo Vieira

Paulo Vieira corre pelas ruas de São Paulo desde os 15 anos e pelo mundo desde os 32, quando passou uma temporada em Londres. Adora correr em estradas rurais, descobrir novos caminhos e ir e voltar do Pico do Jaraguá. Mas agora anda frequentando também treinos no Parque Villa-Lobos às 7 da manhã com seu tênis minimalista - desde que a Lusa não jogue na véspera.

2 Comentários

  1. Naima

    “Ser o protagonista da nossa própria história” é digno de se tatuar em algum lugar. Ou não.

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  2. Antonio Bellas

    Parafraseando o grande Lulu Santos ” Baby eu sou, sincero!”
    Volta por cima?…. Sei la…
    Você parece muito melhor agora
    Abcs

    Reply

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