O cara que atropelou Marcelo Fromer (e não quis me dar entrevista)

Julia Zanolli

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No dia 11 de junho de 2001 o músico Marcelo Fromer, guitarrista dos Titãs, foi atropelado por um motociclista depois de sair de casa no início da noite para treinar. Ao atravessar a Avenida Europa, na zona sul de São Paulo, Fromer caiu, sofreu traumatismo craniano e teve a morte cerebral anunciada dois dias depois do acidente.

O motociclista chamou o resgate e fugiu em seguida. Somente uma ano depois, Erasmo Castro da Costa Júnior, 31, foi preso e confessou ter matado Marcelo Fromer.

GUIA DE SOBREVIVÊNCIA DO CORREDOR DE RUA 

Sua defesa tentou responsabilizar o músico pelo acidente, dizendo que ele havia atravessado fora da faixa de pedestres e que a rua estava escura – o país passava pelo período de racionamento de energia e a iluminação pública estava reduzida.

 

Acabou sendo condenado a 2 anos e 8 meses de detenção por homicídio culposo, substituída por prestação de serviços à comunidade.

NANDO REIS, ESPATÓDEAS E SIBIPIRUNAS

No final de 2009, Maurício Barros, então redator-chefe da Runner’s World, lançou a ideia em uma reunião de pauta. “O cara era corredor, morreu no meio do treino. Quem corre na rua encara esse risco. Precisamos contar essa história”. Eu tinha acabado de me formar e era repórter da revista, a pauta caiu no meu colo. Além da matéria, acho que o Maurício queria me dar um necessário caldo de reportagem. A gente tinha que falar com o Erasmo, falar com a família do Fromer, refazer o percurso daquele treino.

O JORNALISTA QUE VIROU ALFARRABISTA

Eu não sabia nem como consultar um boletim de ocorrência. Essas coisas a gente não aprende na faculdade, resmunguei. Com ajuda de uns colegas do meio e de advogados corredores, localizamos o acórdão do caso.

 

No fórum da Barra Funda, depois enfrentar uma longa fila repleta de mulheres com olhos tristes, consegui botar as mãos em mais algumas informações. Esses dados são públicos, às vezes a gente até se esquece disso.

O JORNALISTA ESPECIALIZADO EM GENERIDADES

Depois desse corre jurídico, descobri que Erasmo morava na Praia Grande. Na redação, resolvemos que era melhor aparecer por lá e não ligar e tentar marcar uma entrevista.

 

Em um sábado de manhã de março de 2010, eu e Renato Pizzutto, o fotógrafo mais talentoso e rabugento que já passou por aquela revista, descemos para o litoral com um carro da firma à paisana. Lembro de ter achado o lance à paisana bastante emocionante.

Reportagem de corrida não é exatamente cheia de adrenalina, minha gente.

VIDA DE FRILA, ADRENALINA PARA PAGAR AS CONTAS

A casa ficava em uma travessa da rodovia, a uns 50 metros da estrada. Tinha um portão alto com grades azuis. Desci sozinha e vi alguém dentro da casa. Pedi para falar com o Erasmo e ele apareceu pouco depois, sem camisa e com um short de praia.

Parecia bem mais velho do que nas fotos da época do acidente. Me senti covarde por pegar o cara de surpresa em um sábado de manhã, mas era exatamente essa a intenção. Expliquei que era repórter e estava escrevendo uma matéria sobre o Marcelo Fromer. Ele não me convidou para entrar.

Disse que queria mostrar a versão dele da história, ajudar a prevenir outros acidentes, blablabla. Ele ficou me escutando apoiado no portão. Eu tinha me preparado para ele não querer falar, para ele resolver contar tudo, para ele ficar puto e me mandar embora, mas não tinha me preparado para ele pedir dinheiro para falar.

Erasmo disse que o acidente só trouxe coisas ruins para a vida dele e que não tinha porque tocar em um assunto tão complicado sem uma “compensação financeira”.

ABRIL E DINHEIRO: UMA RELAÇÃO PERIGOSA

Na hora fez muito sentido. Ele vai ser sempre “o cara que atropelou o Fromer”, para que contar essa história de novo? Acho que ele pediu 300 ou 400 reais. Eu tentei negociar, dizer que não era bem assim, que ele ia ganhar na verdade o espaço para contar o lado dele.

Sem conversa. Voltei para o carro e pensei em ligar para o Maurício, mas achei melhor ser agilizada, sacar a grana, pagar o cara e voltar com a entrevista. Quase paguei para ele falar. Tinha acabado de sair da faculdade, nem sabia que o código de conduta da Editora Abril e dos jornalistas um pouquinho mais safos proibia isso.

Mas desconfiei que coisas que não dão recibo normalmente não podem fazer parte da reportagem.

Disse para ele que ia pensar e que ligava depois para saber se ele não tinha mudado de ideia. Voltei para São Paulo depois de 15 minutos de conversa. Quando saí, minha gata estava dormindo na cama. Quando voltei, ela ainda estava exatamente na mesma posição.

Depois de chegar na redação na segunda-feira descobri que jamais poderia ter pagado pela entrevista. Tentei ligar para o Erasmo muitas vezes, ele nunca mais me atendeu.

Tentei falar com a família do Fromer, sem sucesso. Com a namorada dele na época. Nada. Sem o lado do Erasmo nem o da família não tinha jogo. Eu propus escrever uma matéria sobre a não matéria, mas na época não emplacou.

Até que o Paulo lançou a ideia numa reunião de pauta do Jornalistas que Correm: “Queria falar da história do Fromer…”

 

 

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Julia Zanolli

Julia Zanolli começou a correr em nome do bom jornalismo quando foi trabalhar na revista Runner’s World sem entender nada do assunto. A obrigação virou curtição, mesmo depois de sair da revista. Se livrou do carro para poder andar a pé pela cidade, mas é fã assumida de esteira. Prefere falar de comida do que de nutrição e acha que ter tempo é muito melhor do que matá-lo.

4 Comentários

  1. WILSON DIORATO DE SOUTO

    Tenho curiosidade de saber como está o homem que recebeu o coração de Marcelo Frommer. Na época eu era funcionário do Hospital Beneficência Portuguesa e esse homem recebeu o coração lá no hospital. Como eu era da lavanderia, lembro-me de ter entregado roupas no mesmo andar em que estava. Isso já tem quase 18 anos, estou curioso pra saber se ainda está vivo.

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    • Paulo Vieira

      Muito interessante sua curiosidade, Wilson, vamos ver se vamos atrás disso!

      Responder

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