Tongariro National Park: 20K de caminhada entre vulcões

JQC

Tag: , , , , , , , , , , ,

Lembro exatamente quais eram os meus objetivos quando procurei a médica esportiva: correr 10K até o fim do ano e aguentar os trekkings da viagem na Nova Zelândia. Sinceramente, achei que o primeiro desafio seria bem mais difícil do que o segundo, já que nas férias nós ficamos naturalmente mais dispostos. Não foi bem assim.

Talita Ribeiro na caminhada no Tongariro Park com vulcão ao fundoQuase todos os dias eu fiz algum exercício físico aqui na terra dos maoris e kiwis: nadei com golfinhos, caminhei e corri em belíssimos jardins botânicos, cavei minha própria banheira de água termal na areia e… andei durante 6 horas no Tongariro National Park, entre vulcões ativos e em um terreno extremamente difícil, que lembrava o do Deserto do Atacama, com direito a 700 metros de subida íngreme, que se repetiu duas vezes, e descidas infinitas.

Você deve estar pensando “mas 6 horas para 20K é muito tempo”, sim, quando se está em um terreno plano, sem pedras, barro, trechos com finas e escorregadias camadas de gelo, um vento congelante contra – que pode chegar a 100km/h -, e lagos lindos no caminho, para ficar contemplando e tirando fotos, é claro. Tudo isso tornou esse cansativo passeio, inesquecível.

Começamos a caminhada as 8h30, com direito a céu limpo e um sol lindo. Os três primeiros quilômetros, com trechos em passarelas de madeira e planos, enganaram bem e pareciam anunciar uma trilha tranquila. Em pouco tempo, tivemos que tirar 2 das 3 camadas que estávamos vestindo, já que o calor da caminhada não estava sendo rebatido pelo vento – contávamos com a proteção de várias montanhas e mais um vulcão ativo.

No quarto quilômetro, veio a primeira subida e a visão desoladora: pessoas parecendo formiguinhas em cima de uma montanha “invencível”. Entrei no modo “Varig” e comecei a minha versão de “550 quilômetros, 550 quilômetros, para um pouquinho, descansa um pouquinho 550 quilômetros…”, subindo um pouquinho, parando um pouquinho, e assim por diante.

Marco Gomes no Tongariro National Park com vulcão ao fundoAo alcançar o cume, senti a mudança brusca de temperatura e os tais ventos fortes, coloquei de novo a minha blusa polar, meu casaco corta-vento, mais touca e luvas. Ainda me recuperando, vi o próximo desafio: depois da merecida descida, havia mais um montanha a ser “vencida”. Antes que eu pudesse chorar – ok, estou fazendo drama – vi também o vulcão bem perto, tão perto, que pude contemplar o vermelho profundo de seu topo. Assustador e maravilhoso.

Na montanha seguinte, sofri o meu primeiro, ou pior, os meus primeiros acidentes de percurso: ao tentar escalar uma parte barrenta coberta de uma fina camada de gelo, eu escorreguei duas vezes e garanti mais um roxo no joelho, além de uma visita a lavanderia do camp, para limpar a roupa suja. Tudo bem, o frio anestesiou a dor e eu continue subindo, até ser recompensada pela visão dos lagos, que pareciam pedras preciosas de tão lindos.

Lagos Esmeralda do Tongariro National ParkPara chegar aos lagos, porém, era preciso vencer uma descida íngreme em um terreno cheio de uma terra preta, que te obrigava a fazer movimentos parecidos com o do esqui, deslizando e equilibrando o corpo nos quadris. Nesse trecho começou o “cheiro de ovo cozido”, também conhecido como enxofre, que nos acompanhou por mais muito tempo, já que a fumaça vulcânica brotava do chão e “temperava”  tudo ao redor.

Aquela era a metade da trilha, que contava ainda com uma longa descida em um terreno cheio de pedras, com uma vista linda do parque e placas assustadoras, que nos lembravam a todo momento que o vulcão poderia entrar em erupção – assim como aconteceu no ano passado – soltando pedras quentes voadoras. Os buracos imensos ao lado da trilha também não nos deixavam esquecer. Descansar para que, não é mesmo?

placas sobre o risco de erupção no Tongariro National ParkOs três últimos quilômetros foram dentro de uma densa e úmida floresta, com direito a passarinhos, riachos, flores… que em nada lembravam o cenário quase sem vida que havíamos acabado de cruzar. Sim, eu quis abraçar cada nova placa de quilômetragem anunciando que o fim da trilha estava próximo. Ao chegar no local em que o ônibus nos esperava para ir embora, 20 minutos antes do combinado, senti um misto de alívio e dor nas pernas. Nada que um Dorflex e muita água quente vulcânica não ajudasse a melhorar ; )

/ 72 Posts

JQC

2 Comentários

  1. Anna Vlis

    Eu amo os seus posts, neste por exemplo me senti vendo esses lugares em uma bela caminhada, você sabe descrever como poucos. Alimento um sonho desde a adolescência de viajar e conhecer alguns países, tenho um amor e admiração enorme pela Itália, não sei de onde nasceu, mas só de vê imagens daquele lugar me faz sonhar rsrsr . Amei NZ, não perdi uma foto postada no face, fico feliz que tenham feito uma excelente viagem, vc e seu marido, um casal admirável,bjinhoss

    Responder

Trackbacks & Pingbacks

  1. Retrospectiva Jornalistas que Correm - Jornalistas que correm

Deixe seu comentário

Seu e-mail não será publicado ou compartilhado e os campos obrigatórios estão marcados com asterisco (*).

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.