Telma, não sou tarahumara

Paulo Vieira

As coisas estão começando a se complicar. Ontem acordei cedo e fui conhecer o Diego, treinador da 5 Ways, assessoria conveniada à academia que frequento. Não apenas conhecer, mas participar do “treino” – estou me acostumando à palavra.

O treino, na beleza que é o Parque Villa-Lobos às 7 da manhã, consistia em correr 10K no ritmo mais forte possível. Mas era preciso manter esse ritmo. Nada de oscilações nem de quebrar no final.

Diego queria conhecer meu limiar de esforço, a primeira parte de um teste de lactato, algo do qual falaremos futuramente.
(Vai vendo onde estou me mentendo).

A distância não metia medo, até porque seriam apenas três voltas no parque, nada que fizesse baixar um tédio inamovível. A questão era segurar aquele ritmo que, ao começar, me pareceu insustentável.

Tendo a acreditar que meu corpo se acostumou a um pace, o meu pace, um pace que talvez eu jamais me liberte. Algo na casa dos 5’30”, 5’40”. Falta-me sempre algum dado na conta para eu ser mais preciso. Ou a distância percorrida, que no máximo estimo, ou o tempo, quando invariavelmente o celular fica sem bateria. As meias do Rio, corri-as em 1:58 e 2:02, mas a segunda marca é ainda mais suspeita, pois amarrei mal o chip e fiquei fora de registro.

Ontem a coisa era séria. Diego queria o tempo preciso, desde que eu mantivesse o ritmo maluco. E lá fui eu largando no pau, sentindo que a coisa ia cobrar um preço na terceira volta.

(A coisa era tão séria que o Diego queria me ensinar como abrir um copinho d’água, furando-o: não havia centésimo a perder).

Na segunda volta, aliás, o copinho que o Lauro, o amigo do apoio, nos entregava me escapou da mão e eu perdi uns segundos esperando por um outro. Nada, imagino, que tenha impactado o resultado final: 47’47″30.

Senhores, sou um sub 5, já completo um quilômetro abaixo dos 5′, algo que jamais pensei ser possível em distâncias um pouco maiores.

Fiquei tão animado que quero repetir, senão baixar, esse tempo nos 10K de domingo, no Circuito das Estações, prova para a qual fui convidado.

E nos 14K rurais que irão parar Boituva no próximo dia 11, quem sabe fazer aquele pitoresco circuito rural em menos de 1:10′.

***

correr contra o relógio é tão bom quanto na montanha ou na praia
O relógio ficou em casa/Foto: corridasdemontanha.com.br

Escrevi cerca de 40 posts deste o início deste site. Noventa por cento deles me exibiam como um sujeito preocupado em buscar o prazer, a liberdade, em valorizar a ausência de regras da corrida. E eu me vejo agora em guerra contra o relógio, interessado em melhorar padrões de siglas como VO2 etc. Algo, suponho, está se perdendo aqui. Peço que me ajudem a manter a velha chama acesa. Por favor? Alguém?

Quando me apresentei ao Diego, ele perguntou se eu iria colocar uma bermuda. Estranhamente eu já estava usando uma, bege, cheia de bolsos, possivelmente de algodão, que acho que seu cérebro deve ter interpretado como um macacão de jeans daqueles fazendeiros americanos de desenho animado. “Procure comprar uma bermuda de tactel”, ele disse, gentilmente, ao Old McDonald.

Onde isso vai parar?

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Paulo Vieira

Paulo Vieira corre pelas ruas de São Paulo desde os 15 anos e pelo mundo desde os 32, quando passou uma temporada em Londres. Adora correr em estradas rurais, descobrir novos caminhos e ir e voltar do Pico do Jaraguá. Mas agora anda frequentando também treinos no Parque Villa-Lobos às 7 da manhã com seu tênis minimalista - desde que a Lusa não jogue na véspera.

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  1. Na corrida da New Balance, no Jóquei, o que interessa é performance

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