Síndrome da Linha de Chegada

Paulo Vieira

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Quem acompanhou meus relatos sobre a meia do Rio me leu a praguejar sobre as dificuldades que tive em completar a prova e sobre o tempo de 2:02′, pior, portanto, que o desempenho do ano passado, quando cheguei a andar por uns 5 minutos. Isso a despeito de estar hoje muito melhor treinado, ter mais rodagem em corridas de montanha e ter vencido praticamente uma maratona (cerca de 4 horas) no domingo anterior, quando fui da Vila Romana ao Pico do Jaraguá e voltei.

A única variável que explicaria desempenho tão medíocre seria meu estado geral, já que eu vinha de febre baixa e dor de garganta na véspera. Mas acordei no domingo bem disposto, por isso me inclino por afastar essa explicação confortável.

Tenho a impressão que meu desempenho foi afetado por outra coisa, algo de que nunca ouvi falar (mas também não fui procurar no Google) que batizei de síndrome da linha de chegada.

Síndrome da Linha de Chegada, com maiúsculas, para dar mais – essa palavra faz tempo que você não ouve – impedância.

É mais ou menos assim: lá pelo meio de uma prova, que tem de ser uma meia pra cima, meus olhos começam a procurar com sofreguidão pelas placas de quilometragem. Passada a placa, vem uma enorme ansiedade pela próxima, e assim sucessivamente. Esse estado intranquilo é tudo que não advogo na corrida, que para mim tem outras “utilidades”, uma delas ser opção de transporte, outra ser vetor para se conhecer novas paisagens.

Para dar fim a essa ansiedade no Rio, chegava a fechar os olhos para o cenário de Pão de Açúcar e Aterro do Flamengo.

Nada disso ocorre numa corrida em que a linha de chegada não existe. Em que a corrida pode ser abortada a qualquer momento para se tomar um trem; ou, como nas estradas rurais de Cunha, para voltar para a casa andando – não que eu tivesse feito isso.

A ideia de que há um circuito a ser cumprido, e de preferência num tempo adequado, parece incomodar minha mente, que joga contra o corpo e fica martelando comandos desestimuladores. Falta um colega ou um Capitão Nascimento nessa hora para manter o moral da tropa alto.

Sérgio Xavier, em seu blog Correria, na Runner’s, levantou a hipótese de ter me faltado no Rio gel de carboidrato. A questão é que nunca usei tal coisa. No Rio, a propósito, não faltou água, que tomava a cada 2K, se tanto.

Sábado passado corri 2:10′ no velho beaten track Alto de Pinheiros-Cidade Universitária e só fui me hidratar ao término da corrida. Não tinha linha de chegada nem placas de quilometragem.

Serei, como se diz no futebol, um craque de treino e um pangaré de jogo?

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 9 (4 em SP, 2 Uphill Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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