Atrás do Chapolim

Paulo Vieira

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Tudo parecia estar dando certo no domingo. Acordei sem dor de garganta, sem febre e muito menos sem a indisposição geral que havia me acompanhado de quinta a sábado, os prenúncios mais agourentos que eu poderia ter antes de uma corrida. Ainda precisava me bandear lá do meião de Niterói, onde eu estava hospedado, até São Conrado, pegando o que desse: ônibus, barca, outro ônibus, táxi.

E mesmo com o motorista do primeiro ônibus mostrando o que é domingar de verdade, cheguei no laço à barca das 7h30, o que deu segurança para chegar à largada no horário.

Havia cerca de 20 mil inscritos, segundo a TV Globo, para esta edição da meia maratona do Rio/Yescom. Meu número tava na casa dos 16 000. Se alguém estava ali preocupado em baixar seus tempos, o começo não poderia ser pior.

Logo depois da largada, São Conrado acabava e começávamos a nos apertar pela Niemeyer, estreita para aquele tanto de corredores. Veio Leblon, rapidamente Ipanema e Copacabana, onde o prédio do Hotel Windsor, antigo Meridien, que marca a virada para Botafogo e Centro – e a metade final da corrida -, nem deu tempo de ser assim um marco tão ambicionado.

Mas no Aterro tudo mudou.

Os quilômetros começaram a ter muito mais de 1 000 metros e a paisagem, praticamente imutável, a pesar. Duvido que um marco tão bonito como o Pão de Açúcar, que não saía nunca do lugar, tenha sido tão odiado na vida. Odiei Lota de Macedo Soares, odiei o feio Monumento aos Pracinhas, que também não vinha nunca.

Alguma coisa estava errada: como alguém que corre por quatro horas seguidas a uma semana da prova, história contada aqui, começa a sentir o peso de uma corrida com metade desse tempo?

Precisei fechar os olhos por certas ocasiões para suportar a pressão que vinha da cabeça, a pior possível: “Não acha que tá na hora de parar com esse esforço, meu velho?”

Novamente, como na prova de 2012, buscava álibis para um provável e próximo abandono: a indisposição da semana, a febre baixa da antevéspera, a chuvinha nas costas, o tema babaca do Esporte Espetacular tocado na largada.

Mas seria muito pouco edificante abandonar, e fui em frente, fechando os olhos para a inútil paisagem quando preciso. Completei em 2:02′, uma marca dir-se-ia inaceitável para os meus feitos recentes e para o tempo do ano passado, 1:58′.

Pra piorar, ainda cheguei depois do cara vestido de Chapolim.

A má performance pode estar relacionada com minha condição de saúde no domingo, é verdade. Mas eu me sentia mais pressionado pela cabeça do que por qualquer músculo. Por isso eu comecei a matutar uma outra hipótese, de que falarei já já, a Síndrome da Linha de Chegada.

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(o fotógrafo conseguiu se atrasar ainda mais, e não me pegou na chegada/Crédito: Igor Olszowski)

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 7 (Sp, Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

4 Comentários

  1. Iracema Pamplona Genecco

    Oi, Paulo:
    achei muito mais interessante teu relato. Isso é que é corrida! Já vi e li bastante sobre os que conseguiram subir ao pódio (um dia chegas lá)!

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  2. Sérgio Xavier

    A descrição da sua prova é muito parecida com a minha primeira meia do Rio em 2003. Desanimei pelo 15 km, foi mais do que cansaço. Foi desânimo mesmo. Fiquei me sentindo culpado por ser tão loser. Depois aprendi que tem um processo químico aí. Falta sódio, potássio e uns outros troços. Fala-se muito do gel como repositor de carboidrato, mas ele recarrega os sais também. Imagino que vc não tenha tomado nada além de água. O tal do gel em prova com mais de 1 hora ajuda mesmo. O que parece desânimo costuma ser deficiência de sais.

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  3. Felipe Arakawa

    Ué, vc correu uma Maratona antes de uma meia, como acha que o corpo responderia?

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  4. Paulo Vieira
    Paulo Vieira

    Imaginava que ia voar sobre o Aterro, Felipe, o que realmente não aconteceu. Na próxima experimento o gel, Serginho, vamos ver se ajuda. Talvez seja hora de começar a ser menos travesso…

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