Algo não aconteceu no meu coração na Ipiranga com a São João – felizmente

Paulo Vieira

Eu estou me achando. Embora jamais tenha corrido a maratona, só meias, passei os últimos dias dizendo a quem quisesse ouvir minha parolagem que vou virar ultramaratonista. Só 42K é pouco. Neste domingo, avancei um pouco na minha quilometragem, chegando a correr 2:30′ se os relógios da Sumaré estavam mesmo sincronizados com meu celular que, claro, descarregou com cerca de 15 minutos de corrida.

2H30 SEM ÁGUA, PARA COMEÇAR 2016

LEVE A CANTAREIRA NO BRAÇO

A PRIMEIRA MARATONA

Se não foram 2:30′, foram ou 2:32′ ou 2:29′, não importa muito. Mas essa que foi a melhor marca da minha carreira – uns 27K – ajudou a aumentar o meu nível de pedantismo e convencimento. Agora vou pras cabeças. Acho que é hora de pensar nos 42K. E vou chegar lá, espero, correndo ainda sem preparador, no espírito maverickiano que marcou minha trajetória até aqui. (E logo em seguida vou correr com os tarahumaras: o amigo Arthur Veríssimo em breve vai contar esta história aqui).

CORRENDO COM OS TARAHUMARAS

TELMA, NÃO SOU TARAHUMARA

A não ser que apareça a tal maldição dos 30 quilômetros, a falta do glicogênio que dizem nos acometer e eu me veja beijando a lona, é esse o plano. Que ficou ainda mais factível agora que meu escritório veio para casa e o meu tempo ficou incrivelmente mais livre.

O MURO DOS 30K

A CASA CAIU, O QUE FAZER

A corrida de ontem teve momentos sublimes. Embora numa secura nível Brasilia em agosto, decidi trocar as árvores da Usp e do Parque Villa-Lobos pelos galpões da Lapa de Baixo. Comecei muito cedo, às 7h35, atravessei o Viaduto da Lapa, andei pela fantasmagórica rua do Curtume, pela Ermano Marchetti e tomei, pertinho do estádio do Nacional, a Avenida Santa Marina. A velha fábrica de vidro Santa Marina, há tempos na mão do capital estrangeiro (e gerando, na velha expressão do Brizola, as “perdas internacionais”), na ativa mesmo no domingo. Em seguida, um lugar digno de se conhecer: a pequena estação Água Branca da CPTM, cuja característica principal é ter um cruzamento em nível, desses com cancela em que você tem de esperar o trem passar para atravessá-lo.

(O que não seria necessário, pois na meia hora que fiquei por ali não passou trem nenhum. E olha que é a importante Linha Rubi, que leva a Perus, Francisco Morato e Jundiaí).

O que aconteceu em seguida já valeria a corrida. Entrei na linha do trem, seguindo uma trilha para os veículos de manutenção. Fui embora, até onde dava, às vezes pisando terra, às vezes dormentes, às vezes brita. Quando estava na região do Memorial da América Latina, outras linhas convergiram e eu fiquei em cima da brita, correndo entre as linhas férreas. Mesmo sem vivalma por ali, achei que não ia encontrar saída e recuei. Como não tenho uma câmera leve, fico devendo imagens daquelas placas ferroviárias que adoramos, tipo “Apite” ou “Cuidado com os Corredores”. Entres idas e vindas, uma boa meia hora – e nenhum trem para dar uma emoçãozinha.

De volta à Santa Marina e à Marquês de São Vicente, acompanhei os casais que deixavam, às 8h30 da manhã, a noitada de sábado da Broadway, não sei a casa ainda tem esse nome, lugar em que vi alguns shows do Ira! nos anos 80. O que me fez pensar se os pais dos rapazes que dali saíam não seriam adeptos das ideias do Feliciano. Fui seguindo os muros do trem até o Bom Retiro, onde tomei a Sólon e a Anhaia, que, sabemos todos, passa sob a linha férrea e comunica o Bom Retiro com a cidade. Daí Campos Elíseos, estação Julio Prestes e Sala São Paulo e seu inexorável cheiro de urina, Boca do Lixo, Rio Branco, Timbiras, São João, Ipiranga (felizmente nada aconteceu com meu coração no cruzamento famoso), Praça da República – fiquei com vontade de parar para o acarajé -, General Jardim, Cesário Motta e Minhocão.

E aí, parceiro, a minha boca tava seca demais. Com quase duas horas de corrida, eu precisava me hidratar, pois, como de costume, não havia tomado água alguma. Felizmente, no meio do Minhocão havia um vendedor de água e coco, que salvou minha pele por 2 mambos.

Deixado o Minhocão e seus corredores, ciclistas e marofeiros, deu para seguir em passo piano pelas Perdizes até acabar na Avenida Sumaré já perto do metrô, quando ela passa a se chamar Paulo VI.

TURISMO FERROVIÁRIO DE EXPERIÊNCIA

QUEM FREQUENTA O MINHOCÃO

Aproveitei para viver aqueles momentos indescritivelmente deliciosos do pós-corrida num dos bairros mais bonitos da cidade, o Sumaré, entre a Sumaré e o prédio da MTV (que logo sai dali). Destaques insuperáveis: a casa com o relógio de sol da rua Corumbá e a água de coco, sem dúvida a melhor da minha vida, na Caixa d’água.

Terminei a corrida por volta das 10h05, calor de 27 graus e umidade na casa dos 15%, imagino, o que parecia não incomodar as dezenas de corredores que naquele momento estavam na Avenida Sumaré, uma avenida que certamente não é muita apropriada para o esporte, mas é o que temos.

Esta semana, aproveitando meu exílio involuntário, vou fazer algumas corridas em estradas de terra nas cercanias de São Paulo. Esse negócio tá ficando bom demais.

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Paulo Vieira

Paulo Vieira corre pelas ruas de São Paulo desde os 15 anos e pelo mundo desde os 32, quando passou uma temporada em Londres. Adora correr em estradas rurais, descobrir novos caminhos e ir e voltar do Pico do Jaraguá. Mas agora anda frequentando também treinos no Parque Villa-Lobos às 7 da manhã com seu tênis minimalista - desde que a Lusa não jogue na véspera.

1 Comentário

  1. Marly

    Paulo, tudo bem?
    Voltei de férias e fiquei sabendo sobre as mudanças na Abril.
    Quando puder, me passe seus contatos, por favor.
    Seu blog está show…. acho que vou começar a correr e preciso de várias dicas… Sucesso e boa sorte em sua nova trajetória.
    Você é um profissional nota 10! Parabéns pelo seu belo trabalho.
    Abraços!
    Marly

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