A corrida do Pico, parte II: a mais proustiana das minhas corridas

Paulo Vieira

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    “Inconsequente”, escreveu o Gesu Bambino, devidamente apresentado a vocês num post nos primórdios deste blog. Gesu, que se prepara para correr sua primeira maratona, a de Nova York, em novembro, definitivamente uma bela estreia, me criticou. Logo a mim, seu grande, seu maior, seu mais amado companheiro de corridas, companheiro de planalto e planície, na alegria e na tristeza, na carreira ou na cadência.

    Gesu me criticou pelo que escrevi no post anterior, sobre o Pico do Jaraguá. “Inconsequente”, eis o comentário sucinto e explosivo que ele adicionou ao meu texto no facebook.

    Eu fiquei amuado, claro, e cortei relações por alguns segundos. Então liguei pro Sérgio Xavier, publisher da Runner’s Brasil e chefe dele, aliás, para ouvir uma opinião abalizada sobre como eu devia encarar esta semana que antecede a minha prova, provinha, vai, de fogo: a meia maratona Yescom/Globo do Rio. Fui mesmo inconsequente ao correr uma maratona informal – ida e volta ao Pico do Jaraguá, desde a Vila Romana, 3:52’, mais ou menos – exatos sete dias antes de encarar a meia?

    Eis o que ele disse: “Para ser justo contigo, o mínimo que posso dizer é que fizeste uma tremenda merda”, começou, num tom de voz que devia ser comum na época da Guerra Cisplatina. “Tudo o que fizeres esta semana será inútil em termos de performance. O que tinhas de ganhar de preparação você já ganhou. Ao correr essa, digamos, maratona, você poderia ter se lesionado muito seriamente.”

    Mas eu não me autosabotava. Não é a primeira vez que digo que provas não são minhas metas; quero chegar ao estágio da maratona, e acho que já lá estou, mas não vou deixar de correr, digamos, boas léguas de uma estrada que nunca percorri só porque uma prova assoma no horizonte. Serginho recomendou não fazer nada esta semana, no máximo “dois trotes”, o que me pareceu um bom conselho e, como todo bom conselho, digno de não ser levado em conta.

    Mas retomando de onde parei no post passado: depois de avistar São Paulo do alto da grande montanha, desci o escadão, bebi água boa da torneira e me piquei (no bom sentido). Os quatro ou cinco quilômetros da descida pela estrada que leva ao Pico foram muito tranquilos, como eu esperava, e logo já passava pela comunidade guarani que vive defronte à entrada do Parque.

    Quando deixei para trás a estação Vila Clarisse da CPTM, a surpresa: um trem acabava de deixar o local. Se precisasse, teria de esperar uma boa meia hora pelo próximo. Segui rente à linha, caí para a Agenor, atravessei a ponte sobre a Bandeirantes e logo veio o Piritubão e a memória de uma menina de uns 15 anos cujo nome eu já não lembro a quem visitei, eu também púbere, em sua casa, por insistência do tio, o Zé Manir, que devia ver futuro num romance.

    (Uma cena inesquecível: Zé Manir e o Mussum, os dois gigantes boas praças atrás de pratos enormes de arroz e feijão no set de um comercial de TV qualquer da produtora onde eu trabalhava).

    Mas tergiverso. Minha piritubana morava ao lado de uma oficina já inexistente, do outro lado da avenida, e na TV daquela tarde de sábado em sua casa o Kid Abelha mostrava talvez pela primeira vez na história da banda uma música que tocaria bastante. A que fala de um edredom.

    Mas tergiverso de novo e vou tergiversar mais, pois, não sei se captaram, corrida para mim é, antes de tudo, um portal para um certo desvio da realidade, uma plataforma para uma dimensão puramente evocativa. Algo assim como uma tarde de domingo num bar em Paraty-Mirim, os coqueiros tortos, o pebolim enferrujado, com a vantagem da endorfina. Locais por onde passei trazem recordações; locais inéditos ao ser descobertos trazem ainda mais prazer.

    Ter passado nesse retorno do Pico, sem qualquer cálculo, logo depois pela Emir Nogueira, rua que leva o nome do jornalista morto precocemente e pai de três bons amigos, todos eles exímios jornalistas, também foi prazeroso. O desvio me permitiu então ver de fora o Parque Cidade de Toronto e me atrapalhar na hora de achar de novo a passarela sobre a Bandeirantes, a tal que me deixaria logo em seguida na calçada certa para atravessar a Marginal Tietê.

    Na descida da passarela uma placa exibia um erro grosseiro de concordância, algo como “pedestres, use a passarela”, e ato contínuo pensei no meu pai, eterno caçador de erros de português pelas placas e ruas da cidade, homem a quem eu não havia ainda dirigido meus pensamentos naquele dia, justamente o dos pais.

    Se eu vou aguentar um dia uma maratona, ou uma ultramaratona, eis uma boa questão. Mas a corrida por roteiros improvisados que vou tracejando por aí já está me dando algo maior: a possibilidade de reabilitar memórias que talvez de outro modo jamais voltassem à tona.

    A propósito: não me lesionei. Na segunda as coxas doíam um pouquinho, na terça tudo estava nos conformes. E agora, como na vinheta da Jovem Pan que introduzia a inesquecível voz do Israel Gimpel, o Rio.

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

2 Comentários

  1. Sergio xavier

    Retiro o que disse. Não fez merda. Como eu poderia ter lido este texto não fosse a maratona improvisada?

    Responder

Trackbacks & Pingbacks

  1. Como é correr a Maratona de Nova York sem se preocupar muito com ela

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