Correndo na montanha e na sakura

Paulo Vieira

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Como toda pessoa normal que já soube apontar falácias em silogismos lógicos, sou manietado pelas coincidências. A mais recente foi ter aberto há minutos meu e-mail e ter visto ali a programacão para a festa das cerejeiras em flor, no Parque das Cerejeiras, em Campos do Jordão. A festa, se bem entendi, é evento tradicional de julho e agosto da cidade, tão ou mais velho que o Festival de Inverno.

Às coincidências: estive ontem na frente do tal Parque, vi as muitas cerejeiras floridas. Não havia viv’alma, mas deu para perceber que o lugar tem estrutura para receber dezenas ou centenas (de almas); estive em abril pela primeira e até aqui única vez no Japão. Em Tóquio, minha primeira caminhada foi pelo Parque Ueno, famoso pelos piqueniques que acontecem no tempo da sakura, quando as cerejeiras ficam esplendorosamente cerejas. Mas a sakura tinha acabado havia poucos dias, e no Japão é assim: vacilou, ficou pequeno; por fim, não exatamente uma coincidência, mas o registro de ter a lembrança constante de ouvir minha mãe falar das cerejeiras em flor do Portugal de seus tenros e salazarianos anos.

Tenho portanto, e vocês hão de me dar razão, de falar do meu circuito jordanense, minha corrida beatnik que terminou logo depois de ver as cerejeiras da Mantiqueira em flor.

Correr sem roteiro definido, errando por estradas vazias é demais; aos 1 600 metros e 17 graus positivos, melhor ainda. Na sexta, eu petendia chegar ao Auditório Claudio Santoro, para mim um dos lugares lindos de Campos, com as esculturas de Felícia Leirner e a vista da Pedra do Baú. Parti mais ou menos do Portal da cidade, peguei algumas quadras da Estrada Velha e encarei uma subida de talvez 1,5k em direcão ao bairro Alto da Boa Vista. Numa encruzilhada, o Auditório ficava à direita, mas tomei a sinistra e acabei numa rua cujas atrações são um lixão (nada fedorento) e uma pista de motocross (“Sobre as Nuvens”). Logo atravessei de novo a Estrada Velha que vem de São José e ganhei uma rua de terra de uns 2k que culminava com as cerejeiras. Mas havia corrido até aí talvez uns 40′ e, portanto, queria mais. Então entrei numa estrada de terra, subidas e descidas, que passava por um sítio com um gramado impecável e chegava à Estrada Nova. Depois de ainda descer e subir por uma trilha chamada Zig-zag, voltei pelo mesmo caminho até o Parque das Cerejeiras e de lá até o Portal. Deu 1h15′.

Ontem, segui o mesmo itinerário até a encruzilhada, mas aí tomei o rumo certo do Auditório. E passei por ele, embalado pela descida contínua. Sabia que iria pagar o preço daquela descida com juros, mas continuei em frente, o asfalto virando terra, os pinheiros dando lugar a clareiras e a vista da Pedra do Baú à direita. Eu me perguntava em que vilarejo ia dar aquilo, mas a resposta veio em forma de uma guarita que interrompia a estrada. Era a entrada de um condomínio, Alpes de Campos do Jordão, algo que o valha.

A volta foi sofrida, mas ao passar o Auditório e a subida contínua de uns 4k, o resto foi luxúria. De novo a rua do lixão, de novo a pista de motocross – agora com duas motos treinando -, de novo a rua de terra e de novo as cerejeiras. Elas foram minha medalha, o Cristo Redentor no dia em que aconteceu a prova do Cristo, no Rio. Total do circuito do domingo: 1:40′.

Nesse tempo de trabalho para pernas, pulmões, tendões e mente, para terminar, ficam algumas rápidas conclusões:

– Quando estiver correndo, arrisque. Entre naquela estrada desconhecida. Você não irá depois de carro, você se conhece. Claro, um acidente, um incidente, isso sempre pode acontecer, mas, nesse caso, melhor era não ter saído de casa;

– Encare os cachorros mostrando a eles que, mesmo forasteiro, quem manda naquele embate é você. Na dúvida, lembre-se do Capitão Rodrigo, do Érico Verissimo;

– Não sei quanto 1’40’ na Mantiqueira significa no plano, mas é coisa pacas;

– Depois de um lixão há sempre um parque com cerejeiras em flor. A recíproca é verdadeira.

– E tem gente que ainda acha que não dá para ler mais de uma tela na internet.

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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